Artigo - MOTIVAÇÃO, QUOTIDIANO,

Ficando desemperrado: Afogando-se em familiaridade

Parece que, semana após semana, nós praticamente sentimos o mesmo, apesar de muitas coisas acontecerem em uma semana. E esse sentimento de mesmice está intimamente ligado à sensação de estar emperrado.

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Então, vamos discutir essa tendência de como muitas vezes nos sentimos emperrados e examinar quais são as causas e condições de se sentir emperrados na mente.

Nós não ficamos emperrados em nenhum outro lugar além de nossa mente – acho que é muito importante saber disso. Portanto, a primeira e mais importante coisa a se saber é que estamos presos apenas em nossa mente.

Muitas vezes parece que estamos emperrados em nossa vida e com as circunstâncias ou com as causas e condições, e a menos que as circunstâncias externas mudem, sentimos que não vamos nos libertar de nos sentirmos presos. Mas essa é uma história muito antiga, as velhas desculpas que usamos por muito do tempo em nossa vida. Apenas dizendo: “Eu só preciso que essa coisa seja colocada em prática, ou que a coisa seja colocada em prática, e então poderei seguir em frente.”

Não estou dizendo que não são sentimentos verdadeiros, mas é tudo subjetivo. Curiosamente, quando estamos neste estado mental, talvez ainda não estejamos prontos para avançar. De alguma forma, em nossa mente subconsciente, queremos de alguma forma não deixar de lado os antigos apegos. E a que estamos apegados?

Muitas vezes somos apegados a situações familiares, um senso familiar de sentimentos, senso familiar de ambiente. Mesmo que nosso ambiente ou sentimentos, ou a situação não seja necessariamente tão maravilhosos – mas é familiar, apenas o fato de termos nos adaptado à situação, aos sentimentos, ao ambiente, nos sentimos apegados a isso. É ao menos familiar.

Nós nos apegamos a isso porque não temos que trabalhar com nossa mente. Já existe um mecanismo na mente para nós, sabemos automaticamente como reagir ao ambiente familiar, ou aos sentimentos, ou à situação em que estamos.

Agora, quando olhamos de perto, vemos claramente como confiamos apenas nas funções automáticas de nossa mente para realmente cuidar de nossas vidas. Em vez de estar determinado a trabalhar com a mente a partir da sensação de ter uma forte vontade de trabalhar com a vida e as situações, e os diferentes sentimentos e emoções que surgem.

Agora, quando olhamos para isso bem de perto novamente, percebemos o quanto gostaríamos de ser mais como um computador do que um ser humano. Quanto nós preferiríamos ser como um animal ou um robô, ao invés de um ser humano. No caso de um robô – apenas automaticamente como está programado – ele funcionará dessa maneira. Da mesma forma, com os animais, como seu instinto natural os guia, o animal naturalmente irá nessa direção sem qualquer outro discernimento.

Mas, como seres humanos dotados de inteligência, deveríamos definitivamente tornar nosso destino mais de acordo com essa inteligência e com a sabedoria inerente que vem com nossa faculdade mental humana, em vez de confiar em nossas programações automáticos ou instintos animais.

Por causa das sementes cármicas prévias do reino animal, ou por terem nascido anteriormente nos reinos animais, as sementes kármicas que estão em alaya (consciência base) para nascer de novo no reino animal – nós muitas vezes parecemos não usar o nosso cérebro, ou exercitar a nossa faculdade mental, para realmente refletir claramente sobre o que é o nosso potencial. E se não refletirmos sobre qual é o nosso potencial, nunca nos tornaremos claros. Como resultado disso, nós apenas ficaremos emperrados em nossas situações cármicas. Seja o que for que o karma desenrole para nós, ficaremos presos nisso e não haverá sentido de movimento ou de avançar na vida com um senso de vontade ou senso de determinação como resultado do uso de nossas faculdades mentais. Não haverá senso de cultivar inteligência ou sabedoria que esteja sempre disponível para ser cultivada.

Portanto, essa sensação de estar emperrado é, na verdade, causada por nada mais do que simplesmente não querer abandonar nosso apego ao que é familiar. Este é o maior obstáculo de todos, por isso devemos realmente olhar para os nossos apegos e examinar como criamos um casulo para nós de várias maneiras.

 

Artigo originalmente publicado em Mangala Shri Bhuti e traduzido por Daniele Vargas

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Escrito por
Dzigar Kongtrul Rinpoche

É mestre da tradição Nyingma do Budismo Tibetano, é escritor, pintor “abstrato” e tem dezenas de livros publicados dentre eles Felicidade Incomum – O Caminho do Guerreiro Compassivo” (Ed. Makara).

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