Artigo - ATENÇÃO, CIÊNCIA, Compaixão, EQUILÍBRIO EMOCIONAL, MEDITAÇÃO,

Meditação e a ciência do bem-estar: entrevista com Cortland Dahl

Em sua primeira visita ao Brasil, o diretor-chefe do Center for Healthy Minds nos fala um pouco sobre a prática de mindfulness e sua relação com o cultivo do bem-estar sob o ponto de vista científico.

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Podemos cultivar o bem-estar da mesma forma que podemos treinar nossos corpos para serem mais saudáveis e mais resistentes? Se sim, como poderíamos usar a prática da meditação para experimentar a equanimidade, para abrir nossos corações totalmente aos outros e para cultivar discernimento e sabedoria?

Nesta última semana de março, Cortland Dahl, instrutor do Tergar International, estará no Brasil pela primeira vez para falar sobre meditação e a ciência do bem-estar. Aproveitamos sua visita para fazer algumas perguntas sobre como a ciência tem entendido a relação entre as práticas de atenção plena e o cérebro, possíveis equívocos durante o cultivo de nosso bem-estar e como estas práticas poderiam influenciar a sociedade como um todo.

 

Lojong: Como podemos cultivar esse bem-estar mais genuíno sem cair no extremo de rejeitar qualquer experiência ruim que nos acontece ou até mesmo rejeitar nossas próprias emoções negativas?

Cortland Dahl: Uma das mais importantes qualidades de um bem-estar duradouro é a auto aceitação. Oscilamos frequentemente entre duas formas de nos relacionarmos com pensamentos e emoções: nos identificamos e somos levados por eles, ou tentamos reprimi-los e rejeitá-los. Pesquisas científicas sobre mindfulness (atenção plena) sugerem que podemos ter uma abordagem mais equilibrada transformando o modo como nos relacionamos com nossas mentes. Ao invés de seguirmos cegamente nossos pensamentos, impulsos e emoções, ou nos confrontarmos com eles, podemos treinar nossas mentes para trazer uma atenção plena acolhedora para essas experiências. Aprendemos a observá-las com curiosidade e abertura, e esta mudança de perspectiva transforma completamente nossa experiência.

Lojong: Ao começar a trilhar esse caminho, como saber se estamos de fato passando por uma transformação, alcançando um estado de tranquilidade e equanimidade, ou se estamos apenas caindo em autoengano nos forçando a “pensar positivo”, porém suprimindo o que estamos de fato sentindo?

Cortland Dahl: Há uma grande diferença entre “pensar positivo” e mindfulness (atenção plena). Pensamento positivo em geral foca no imaginar o que se quer, e que pensar estes pensamentos torna esses desejos realidade. Mindfulness (atenção plena), por outro lado, não foca no que gostaríamos de ter, e sim no que já temos. O pressuposto básico é que não somos fundamentalmente falhos. A mente não está quebrada e a atenção plena não está tentando consertar nada. Mindfulness é uma ferramenta que nos ajuda a ver dimensões da experiência que já estão aqui. Não temos que desejar torná-las reais. Simplesmente aprendemos a ver a nós mesmos mais claramente e, à medida que nossa capacidade de sermos atentos e presentes cresce, a crença de que precisamos de outra experiência, além daquela que já temos, para sermos completos e satisfeitos começa a abrandar, e começamos a confiar que quem somos e o que temos, no momento presente, é suficiente.

Lojong: A ciência já atesta inúmeros benefícios da prática da meditação e muitos estudos são feitos neste sentido. Como você vê o futuro desta área e na sua perspectiva em termos globais e de sociedade qual seria o “ideal” a ser alcançado? Um mundo onde todas as pessoas meditam?

Cortland Dahl: Nossa pesquisa no Centro de Mentes Saudáveis sugere que qualquer um pode se beneficiar da meditação. Fizemos pesquisas com crianças pequenas, policiais, estudantes, trabalhadores e todos os demais. Começamos a ver sinais de que grandes instituições estão vendo o valor de treinar a mente através de práticas como a meditação. Nossa aspiração é que ensinemos estes princípios e práticas para crianças jovens, para que tenham ferramentas para lidar com sua própria mente e alcançar seu potencial de forma plena. Não é preciso que todas as pessoas pratiquem a meditação sentada – essa é apenas uma das várias formas de treinar a mente – mas idealmente todos devem aprender algumas dessas abordagens e como aplicá-las na vida cotidiana.

Lojong: Como a prática de meditação funciona com pessoas que tem TDAH? O que pode ser feito nesse sentido?

Cortland Dahl: Pesquisas sugerem que a meditação pode aliviar os sintomas da TDAH. De fato, a meditação mindfulness vem demonstrando que impacta as mesmas regiões do cérebro envolvidas na TDAH e treina habilidades relacionadas à atenção que são subdesenvolvidas naqueles que sofrem de TDAH. Nossa pesquisa também mostra que aqueles que tem dificuldades com atenção, ansiedade e outros assuntos correlatos, tem maior espaço para crescimento e percebem maiores benefícios com a meditação. Ainda há muitas coisas que não compreendemos de uma perspectiva científica, mas há boas razões para pensar que meditação pode ser um grande benefício nesta área.

Lojong: Muito se fala sobre neuroplasticidade e como a meditação “muda” o cérebro, entretanto qualquer atividade nova também modifica o cérebro e ele está constantemente em mudança. Que áreas a meditação propriamente altera e por que isso é positivo?

Cortland Dahl: Isso é muito verdadeiro. Neuroplasticidade não é necessariamente uma coisa boa. Qualquer atividade repetitiva irá modificar o cérebro, assim como as influências do ambiente se estamos expostos repetidamente a elas. Quando se trata da meditação, a primeira coisa a notar é que existem muitas formas diferentes de meditação, e apenas alguns desses estilos de meditação foram estudados cientificamente. Neste ponto, mindfulness (atenção plena) é a forma de meditação que tem sido mais amplamente estudada. Nossa pesquisa, e a pesquisa de outros cientistas ao redor do mundo, sugerem que a prática de mindfulness impacta regiões cerebrais associadas à auto regulação. Estas incluem regiões como o córtex pré-frontal dorsolateral, que é requisitado no comportamento orientado para metas e na regulação da atenção e emoção, e ainda o córtex cingulado anterior, que está envolvido no monitoramento da experiência, sendo importante para notar a distração, por exemplo. Os padrões e atividade nessas regiões sugerem que a meditação mindfulness aumenta nossa habilidade de monitorar e regular pensamentos, impulsos e emoções, e essas capacidades são centrais para muitos outros aspectos do bem-estar, tais como ter relacionamentos saudáveis, ter foco e motivação no trabalho e fazer boas escolhas relacionadas à saúde física.

Lojong: Muito se fala sobre as qualidades naturais e inatas da consciência como compaixão e equanimidade, entretanto nos ensinamentos também se fala em transitoriedade, em como todas as coisas são compostas e impermanentes e na ausência de algum tipo de essência imutável em nós. Como esses ensinamentos se comunicam?

Cortland Dahl: Pesquisas mostram que até crianças muito novas demonstram capacidade para a bondade, compaixão e empatia, e que essas qualidades emergem muito antes da capacidade de pensar e raciocinar. Em certo sentido, você pode comparar essas qualidades à capacidade de linguagem. Cada ser humano tem capacidade de aprender a linguagem, mas se não estamos cercados pelas condições certas, não vamos expressar essa capacidade. O mesmo é verdade para bondade e compaixão. Pesquisas sugerem que essas são capacidades inatas muito básicas que todos nós temos, mas isso não significa que estão plenamente expressas. Em outras palavras, essas capacidades estão sempre presentes, mas o modo como as experienciamos está sempre mudando.

Lojong: Qual é o principal conselho que você dá para alguém que quer começar a meditar?

Cortland Dahl: A coisa mais comum que ouço das pessoas é que são muito atarefadas ou distraídas para meditar. Mas essa é precisamente a razão pela qual meditamos. Ela nos ajuda a gerir melhor as nossas mentes, para não nos distrairmos tão facilmente. Nos ajuda a gerir melhor nossas vidas, para que possamos lidar com a pressão da vida diária de forma mais efetiva. Para começar, é importante manter de forma simples. Tente apenas 5 minutos por dia. Tente ser consistente. E se você perder um dia, não se preocupe. É a vida. Basta retomar e começar de novo no dia seguinte. Com o tempo, tente meditar um pouco mais. As coisas realmente mudaram para mim quando eu passei a fazer 20 minutos, duas vezes por dia. Isso provavelmente pode soar como muito tempo, mas fez o resto da minha vida melhor, então não parece muito. Então esse é o meu conselho. Mantenha simples. Comece pequeno. Seja consistente. Então construa a partir daí.

 

Cortland é doutor em “Mente, Cérebro e Ciência Contemplativa” pela Universidade de Wisconsin-Madison, (sob mentoria de Richard Davidson) e mestre em “Estudos Budistas” pela Universidade de Naropa. Atualmente, Cortland atua como pesquisador e diretor-chefe do Center for Healthy Minds (também na Universidade de Wisconsin–Madison) e como presidente do Tergar International. Como autor e tradutor, publicou numerosos artigos científicos e livros sobre a prática budista. Pratica e estuda o budismo há 25 anos, agora sob orientação de Mingyur Rinpoche.

Os encontros incluirão ensinamentos sobre práticas simples de meditação que nos ajudam a reconhecer e nutrir as qualidades naturais de consciência, compaixão e sabedoria da mente, bem como discussões sobre a ciência da autotransformação e o cultivo do bem-estar.

 

Agenda de encontros:

Rio de Janeiro – Palestra Pública
Dia 27 de Março de 2019 (quarta-feira), das 20h às 22h
Local: Rua Bambina 115, Botafogo, Rio de Janeiro, SP
Contribuição por participante: R$ 40,00*

São Paulo – Workshop
Dias 30 e 31 de Março de 2019 (sábado e domingo), das 09:30h às 17h
Local: Rua São Joaquim 460, 2º andar, Liberdade, São Paulo, SP
Contribuição por participante: R$ 300,00*

Estes ensinamentos são abertos a todos.

Para a inscrição, envie o nome completo, telefone e e-mail para: tergarbrasil@tergar.org

Mais informações em portugues.tergar.org/eventos/

Tradução: Flávia Soares

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Escrito por
Cortland Dahl

Cortland é doutor em "Mente, Cérebro e Ciência Contemplativa" pela Universidade de Wisconsin-Madison, (sob mentoria de Richard Davidson) e mestre em "Estudos Budistas" pela Universidade de Naropa. Atualmente, Cortland atua como pesquisador e diretor-chefe do Center for Healthy Minds (também na Universidade de Wisconsin–Madison) e como presidente do Tergar International.

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