Citação - ATENÇÃO, Compaixão, EQUILÍBRIO EMOCIONAL, MEDITAÇÃO, MOTIVAÇÃO,

Por que meditar?

in "A Arte de Meditar"

Matthieu Ricard responde à pergunta inicial de todos.

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Examinemos sinceramente nossa existência. Como está nossa vida? Quais foram até agora nossas prioridades e o que queremos para o tempo de vida que nos resta?

Somos um misto de sombras e luzes, de qualidades e defeitos. Seria essa uma maneira de ser ideal, um fato inevitável? Se assim não for, o que fazer? Essa perguntas merecem ser feitas, sobretudo, se sentimos que uma mudança é possível e desejável.

Contudo, no Ocidente, devido às atividades que consomem, da manhã à noite, uma parte considerável de nossa energia, temos menos tempo para nos debruçar sobre as causas fundamentais da felicidade. Imaginamos que, mais ou menos conscientemente, quanto mais multiplicamos nossas atividades, mais as sensações se intensificam e mais nossa insatisfação é estancada. Na realidade, muitos são aqueles que, ao contrário, se sentem decepcionados e frustrados com o modo de vida contemporâneo. Sentem-se desarmados, mas não veem outra solução porque as tradições que preconizam a própria transformação estão fora de moda. AS técnicas de meditação visam a transformar a mente. Não é necessário atribuir-lhes um rótulo religioso particular. Cada um de nós tem uma mente, cada um pode trabalhar com ela.

 

  • Devemos mudar?

Poucos são os que afirmam não valer a pena melhorar seu modo de vida e sua vivência do mundo. Alguns pensam que seus defeitos e suas emoções conflituosas contribuem para a riqueza da vida e que é essa alquimia singular que faz deles o que são, pessoas únicas; que devem aprender a se aceitar assim, a amar tanto seus defeitos como suas qualidades. Eles correm o risco de viver com uma insatisfação crônica, sem perceber que poderiam melhorar com um pouco de esforço e de reflexão. Imaginemos que nos proponham passar um dia inteiro vivenciando o ciúme.

Qual de nós aceitaria fazê-lo com prazer? De outra forma, se nos convidassem a passar esse mesmo dia com o coração cheio de amor pelos outros, acharíamos essa opção infinitamente melhor.

Nossa mente é frequentemente perturbada. Somos afetados por pensamentos dolorosos, dominados pela raiva, feridos pelas palavras duras dos outros. Nesses momentos, quem não desejaria controlar suas emoções para ser livre e mestre de si mesmo? Nós nos privaríamos, de bom grado, desses tormentos, mas, não sabendo como agir, preferimos pensar que, afinal de contas, “a natureza humana é assim mesmo”. Ora, o que é natural não é necessariamente desejável. Sabemos, por exemplo, que a doença é o destino de todos os seres, mas isso não nos impede de consultar um médico quando estamos doentes.

Não queremos sofrer. Ninguém acorda de manhã pensando: “Tomara que eu sofra o dia inteiro e, se possível, toda a vida!”. Em tudo que fazemos, seja iniciar uma tarefa importante, realizar um trabalho habitual, empenharmo-nos numa relação duradoura, seja simplesmente passear na floresta, beber uma xícara de chá, ter um encontro fortuito, esperamos sempre tirar disso alguma coisa benéfica para nós mesmos e para os outros. Se tivéssemos a certeza de que nossos gestos só trariam sofrimento, não agiríamos.

Temos, sim, momentos de paz interior, de amor e lucidez, mas, na maior parte do tempo, são apenas sentimentos efêmeros que logo dão lugar a outro estado de espírito. Entretanto, compreendemos facilmente que, se treinássemos nossa mente para cultivar esses momentos privilegiados, transformaríamos radicalmente nossa vida. Todos sabemos que seria desejável que nos tornássemos seres humanos melhores e nos transformássemos por dentro, tentando consolar o sofrimento alheio e contribuir para o bem-estar do outro.

Certas pessoas pensam que a existência não tem sabor sem os conflitos interiores. Conhecemos todos os tormentos da raiva, da avidez ou do ciúme. Da mesma forma, todos nós apreciamos a bondade o contentamento, a alegria de ver os outros felizes. Parece que o sentimento de harmonia associado ao amor ao próximo possui uma qualidade própria que se basta. O mesmo acontece com a generosidade, com a paciência e com muitas outras qualidades.

Se aprendêssemos a cultivar o amor altruísta e a paz interior, e, paralelamente, nosso egoísmo e seu cortejo de frustrações se atenuassem, nossa existência não perderia nada de sua riqueza, ao contrário.

 

  • É possível mudar?

A verdadeira questão não é então se “Queremos mudar?”, mas “É possível mudar?”. Podemos, com efeito, imaginar que as emoções perturbadoras estão tão intimamente associadas à mente que seria impossível livrarmo-nos delas, a menos que destruíssemos uma parte de nós mesmos.

É certo que nossos traços de caráter geralmente mudam pouco. Se observados com alguns anos de intervalo, raros são os coléricos que se tornam pacientes, os atormentados que encontram a paz interior ou os pretensiosos que passam a ser humildes. Entretanto, por mais raro que seja, alguns mudam, e a mudança que neles se opera mostra que não se trata de algo impossível.

Nossos traços de caráter perduram enquanto não fazemos nada para melhorá-los e deixamos nossa indisposição e nosso automatismo se manter, até mesmo ganhar força a cada pensamento, dia após dia, ano após ano. Mas eles não são intangíveis.

A malevolência, a avidez, o ciúme e outros venenos mentais fazem, indiscutivelmente, parte de nossa natureza, mas há diferentes formas de fazer parte de alguma coisa. A água, por exemplo, pode conter cianureto e nos levar à morte imediata. Entretanto, misturada com um remédio, cura-nos. Por si mesma, ela nunca se tornou tóxica nem medicinal. OS diferentes estados da água são temporários e anedóticos, como nossas emoções, humores e trações de personalidade.

 

Um aspecto fundamental da consciência

Compreendemos isso quando percebemos que a qualidade primeira da consciência, que é simplesmente “conhecer”, não é intrinsecamente nem boa nem má.

Se olharmos além das ondas turbulentas dos pensamentos e das emoções efêmeros que atravessam nossa mente, da manhã à noite, podemos constatar a presença desse aspecto fundamental da consciência que torna possível e subjaz toda percepção, qualquer que seja sua natureza. A tradição budista qualifica esse aspecto cognocente de “luminoso”, pois esclarece, ao mesmo tempo, o mundo exterior e o mundo interior das sensações, das emoções, dos raciocínios, das lembranças e dos temores, levando-nos a percebê-los. Ainda que essa faculdade de conhecer sustente cada acontecimento mental, ela não é afetada, em si mesma, por esse acontecimento. Um raio de luz pode clarear um rosto raivoso ou um sorridente, uma joia ou um monte de lixo, mas a luz não é em si mesma nem maléfica nem benéfica, nem limpa nem suja. Essa constatação permite compreender que é possível transformar nosso universo mental, o conteúdo de nossos pensamentos e de nossas experiências.

De fato, o fundo neutro e “luminoso” da consciência nos oferece o espaço necessário para observar os acontecimentos mentais, em vez de ficar à sua mercê, para criar, em seguida, as condições de sua transformação.

 

Um simples desejo não basta

Não podemos escolher o que somos, mas podemos querer melhorar. Essa aspiração dará uma direção à nossa mente. Já que um simples desejo não basta, cabe a nós realizá-lo.

Não achamos anormal passar anos aprendendo a andar, a ler, a escrever e a nos formar profissionalmente, passar horas a nos exercitar fisicamente para estarmos em forma, por exemplo, pedalando com assiduidade sobre uma bicicleta ergométrica que não vai a lugar algum. Ara empreendermos uma tarefa qualquer, precisamos ter um mínimo de interesse ou entusiasmo, e esse interesse vem do fato de estarmos conscientes dos benefícios que decorrerão de nosso ato.

Por que mistério a mente escaparia dessa lógica? E poderia ela transforma-se sem o menor esforço, simplesmente porque o desejamos? Seria o mesmo que desejar tocar um concerto de Mozart dedilhando ao piano apenas de vez em quando.

Esforçamo-nos muito para melhorar as condições exteriores de nossa existência, mas é a nossa mente que tem a experiência do mundo e a expressa sob forma de bem-estar ou sofrimento. Se modificarmos nossa maneira de perceber as coisas, transformaremos a qualidade de nossa vida. E essa mudança é resultado de um treinamento da mente que se chama “meditação”.

 

O que é meditação?

A meditação é uma prática que permite cultivar e desenvolver certas qualidades humanas fundamentais, da mesma forma que outras maneiras de treinar nos ensinam a ler, a tocar um instrumento musical ou adquirir qualquer outra aptidão.

Etimologicamente, as palavras sânscrita e tibetana traduzidas em francês por “meditação” são, respectivamente, bhavana, que significa “cultivar”, e gom, “familiarizar-se”. Trata-se, principalmente, de familiarizar-se com uma visão clara e justa das coisas e de cultivar qualidades que nós todos possuímos mas que permanecerão em estado latente enquanto não nos esforçarmos para desenvolvê-las.

Alguns acreditam que a meditação não é necessária porque as experiências constantes da vida bastam para formar nosso cérebro e, consequentemente, nossa maneira de ser e de agir. Não há dúvida de que é graças a essa interação com o mundo que a maior parte de nossas faculdades, as dos sentidos, por exemplo, se desenvolve. Contudo, é possível fazer melhor. As pesquisas científicas no campo da “neuroplasticidade” mostram que toda forma de treinamento induz a reorganizações importantes no cérebro, tanto no nível funcional quanto no plano estrutural.

Comecemos, então, nos perguntando o que desejamos verdadeiramente na existência. Contentaremo-nos em improvisar o dia a dia? Não percebemos, no fundo de nós, um mal-estar difuso e constante, quando, ao contrário, temos sede de bem-estar e de plenitude?

Acostumados a pensar que nossos defeitos são irreversíveis, a colecionar fracassos ao longo da vida, acabamos por considerar nosso desfuncionamento como um fato consumado, sem tomar consciência de que é possível nos libertar desse círculo vicioso do qual estamos cansados.

 

Sobre o que meditar?

O objeto da meditação é a mente. Por agora, ela está, ao mesmo tempo, confusa, agitada, rebelde e submetida a inúmeros condicionamentos e automatismos. A meditação não tem por objetivo feri-la ou anestesiá-la, mas torna-la livre, clara e equilibrada.

Segundo a tradição, a mente não é uma entidade, mas uma onda dinâmica de experiências, uma sucessão de instantes da consciência. Essas experiências são frequentemente marcadas pela confusão e pelo sofrimento, mas podem também ser vividas num estado amplo de clareza e de liberdade interior.

Conforme o mestre tibetano contemporâneo Jigmé Khyentsé Rinpotché, “não precisamos treinar a mente para que ela se aborreça mais facilmente ou fique com ciúme. Não precisamos de um acelerador de raiva ou de um amplificador de amor próprio”.  No entanto, o treinamento da mente é crucial se quisermos refinar nossa atenção, desenvolver nosso equilíbrio emocional e nossa paz interior, como também cultivar o devotamento ao bem do próximo. Temos em nós o potencial necessário para fazer frutificar essas qualidades, mas elas não se desenvolverão por si mesmas pelo simples fato de querermos que isso aconteça. Precisam de treino. Todo treinamento, como já enfatizamos, exige perseverança e entusiasmo. Não se aprende a esquiar exercitando-se somente um ou dois minutos por mês.

 

Refinar a atenção e consciência plena

Galileu descobriu os anéis de Saturno após ter fabricado uma luneta astronômica suficientemente luminosa e possante que colocou sobre um suporte estável. Essa descoberta não teria sido possível se seu instrumento fosse defeituoso ou se ele o tivesse segurado com uma mão trêmula. Da mesma forma, se quisermos observar os mais sutis mecanismos do funcionamento da nossa mente e agir sobre eles, devemos aperfeiçoar nosso poder de introspecção. Para isso, temos de aguçar nossa atenção para que ela se torne estável e clara. Poderemos, então, observar o funcionamento da mente, a maneira pela qual ela percebe o mundo, compreende a concatenação dos pensamentos. Enfim, estaremos prontos para tornar mais refinada sua percepção com o objetivo de discernir o aspecto mais fundamental da consciência, um estado perfeitamente lúcido e vivo, sempre presente, mesmo na ausência de construções mentais.

 

O que a meditação não é

Os praticantes da meditação são, às vezes, criticados por ser muito autocentrados, por se satisfazer com certa introspecção egocêntrica em vez de ajudar os outros. Mas não se pode tratar de egoísta uma atitude que busca erradicar a obsessão consigo mesmo e cultivar o altruísmo. Seria o mesmo que criticar um futuro médico por passar anos estudando medicina.

Existem numerosos clichês sobre a meditação. Antes de mais nada, ela não consiste em criar um vazio na mente, bloqueando os pensamentos – o que é, aliás, impossível -, nem em levar a mente a cogitações sem fim para analisar o passado ou antecipar o futuro. Também não se reduz a um simples processo de relaxamento no qual os conflitos interiores são momentaneamente suspensos num estado de consciência indiferenciado.

Há, certamente, um elemento de relaxamento na meditação, mas trata-se mais do alívio que acompanha o “desprender-se” das esperanças e medos, dos apegos e caprichos do ego que não param de alimentar nossos conflitos interiores.

 

Um controle que liberta

Veremos que a maneira de produzir pensamentos não consiste nem em bloqueá-los nem em nutri-los indefinidamente, mas em deixá-los emergir e desaparecer por si mesmos no campo da consciência plena, de maneira que não invadam nossa mente.

A meditação consiste mais exatamente em tomar o controle de sua mente, em familiarizar-se com uma nova compreensão do mundo e em cultivar uma maneira de ser que não está submetida aos nossos esquemas habituais de pensamento. Começa frequentemente por uma atitude analítica, passando à contemplação e à transformação interior.

Ser livre é ser dono de si mesmo. Não é fazer tudo o que vem à cabeça, mas libertar-se da sujeição às aflições que dominam a mente e a obscurecem. È tomar as rédeas de sua vida, em vez de entregá-la às tendências forjadas pelo hábito e à confusão mental. Não é largar o leme, deixar as velas flutuar ao vento e o barco partir à deriva, mas, ao contrário, colocá-lo na direção escolhida: aquela que consideramos como a mais desejável para nós e para os outros.

 

No coração da realidade

A compreensão da qual tratamos consiste em uma visão mais clara da realidade. A meditação não é um meio de escapar da realidade, como a acusam às vezes. Ao contrário, tem por objetivo nos fazer ver a realidade como ela é – o mais perto possível daquilo que vivemos -, desmascarando as causas profundas do sofrimento e dissipando a confusão mental que nos leva a procurar a felicidade onde ela não se encontra. Para chegar à justa visão das coisas, medita-se, por exemplo, sobre a interdependência de todos os fenômenos, sobre seu caráter transitório e sobre a não existência do ego percebido como uma entidade sólida e autônoma à qual nos identificamos.

Essas meditações se apoiam igualmente na experiência adquirida por gerações de contemplativos que dedicaram a sua vida a observar os mecanismos do pensamento e a natureza da consciência e que, em seguida, ensinaram um grande número de métodos empíricos que permitiram desenvolver a clareza mental, a vigilância, a liberdade interior ou ainda o amor e a compaixão. É indispensável constatar o valor desses métodos e verificar a validade das conclusões às quais esses sábios chegaram. Essa verificação não é um simples procedimento intelectual: é preciso redescobrir essas conclusões, depois integrá-las no mais profundo de si por um longo processo de familiarização. Essa iniciativa tem de contar com a determinação, o entusiasmo e a perseverança, o que Shantideva  chama de “alegria de fazer o que é benéfico”.

Começa-se, então, por observar e compreender como os pensamentos se encadeiam e provocam todo um mundo de emoções, de alegrias e de sofrimentos. Penetra-se, em seguida, por trás da tela dos pensamentos para apreender o componente fundamental da consciência, a faculdade cognitiva primeira, no seio da qual todos os pensamentos e todos os outros fenômenos mentais surgem.

 

Soltar o macaco da mente

Para bem realizar essa tarefa, deve-se começar acalmando sua mente turbulenta. Compara-se a mente com um macaco cativo que, de tanto se agitar, se enrosca nas próprias correntes, incapaz de se soltar.

Do turbilhão de pensamentos surgem, primeiramente, as emoções, depois os humores, o comportamento e, com o tempo, os hábitos e os traços de personalidade. Tudo o que se manifesta assim espontaneamente não produz em si bons resultados, da mesma forma que semear grãos ao vento não dá boas colheitas. Ante de tudo, precisamos dominar a mente, a exemplo do camponês que prepara sua terra para nela jogar as sementes.

Se considerarmos sinceramente os benefícios que se colhem quando se faz de cada instante da nossa existência uma nova experiência do mundo, não parece excessivo reservar vinte minutos por dia para conhecer melhor a mente e treiná-la.

O fruto da meditação seria aquilo que se poderia chamar de uma maneira de ser ideal ou de uma felicidade autêntica. Essa felicidade não é constituída de uma sucessão de sensações e de emoções agradáveis. É o sentimento profundo de ter realizado da melhor maneira o potencial de conhecimento e de desempenho que se tem. Essa aventura vale a pena.

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Escrito por
Matthieu Ricard

Monge budista, autor, tradutor e fotógrafo. Autor de vários best-sellers e um orador de destaque. Vive no Nepal onde trabalha na preservação da cultura tibetana e em cerca de trinta projectos humanitários.

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