Artigo - MEDITAÇÃO, MOTIVAÇÃO, QUOTIDIANO, SABEDORIA,

Você não é as suas reações – Parte 1

É muito importante reconhecer que as reações que sentimos não são necessariamente quem somos. Essas reações que parecem parte de nós – como reagimos – são muito sobre quem éramos como seres no passado.

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Quer estejamos falando de nossas ações físicas, nossa fala ou a atividade de nossa mente – especialmente nossa atividade mental e emocional – elas não são na verdade nada além de reações. E são muito interessantes quando as estudamos de perto.

Não é preciso ser, digamos, uma “pessoa ciumenta”, mas qualquer indivíduo pode ser provocado e de repente, tornar-se muito ciumento ou possessivo. Depois, essa mesma pessoa pode até se perguntar: “Por que fiquei com tanto ciúme?” Ou alguém que geralmente não se sente muito apegado pode, de repente, encontrar-se reagindo como se estivesse completamente apegado. Em suas reações a um conjunto particular de causas e condições, alguém que normalmente é uma pessoa segura reagirá de maneira bastante insegura.

Estas tendências para reagir são armazenadas no fluxo mental e quando são ativadas por certas causas e condições, essas “sementes” darão origem às reações correspondentes. A pessoa que não é geralmente muito apegada agirá por apego, alguém que não é ciumento agirá com ciúmes, uma pessoa que não é insegura agirá de maneira insegura, e alguém que geralmente é pacífico se tornará agressivo.

Quando tais reações ocorrem, precisamos ter a capacidade de nos dissociar das reações que estão acontecendo. Isso é especialmente importante para um meditador. Que sentido existe em ser um meditador sem poder olhar para nossas reações ou comportamento neurótico dessa maneira? Mas isso não quer dizer que os meditadores não tenham esse tipo de reação, como qualquer outra pessoa. Meditadores reagem.

Então, meu ponto aqui é que sua meditação é separada das reações, e essas reações são tendências habituais passadas que foram armazenadas na corrente mental.

Às vezes, quando você está meditando, e a meditação está indo muito bem com uma meditação muito clara e desobstruída, não há sementes ou tendências presentes. Mas em outras ocasiões, até mesmo um bom meditador pode reagir. Parece quase que essas reações saem diretamente da ignorância, mas também surgem de uma necessidade de o ego irromper no mundo. É claro que o nosso comportamento é na maioria das vezes distorcido e não há muita consideração quando estamos reagindo assim. Mas, no entanto, acho que é bastante interessante notar que um bom meditador pode reagir de maneiras muito convencionais, por assim dizer, e parecer bastante ciumento, zangado ou inseguro.

Quando estamos reagindo, mesmo que isso não seja aparente externamente, internamente ainda há uma reação. É claro que as reações externas são muito mais fáceis de controlar e trabalhar. A reação interna é muito mais difícil.

Assim, durante essas reações internas, a primeira habilidade necessária – quando se está sentindo ciúme ou qualquer das emoções negativas – em relação a uma situação, a uma pessoa em particular ou em reação a alguma fala perturbadora, é o desenvolvimento de uma espécie de segunda consciência. Tal consciência pode ver através da reação e todo o processo, sabendo o que está acontecendo e sabendo que isso apenas se desgastará por si mesmo.

Esse tipo de consciência tem uma qualidade madura: a capacidade de ver que essas emoções complexas são bastante profundas e que levarão tempo para serem completamente limpas ou eliminadas. Até esse ponto, não se alcança a iluminação completa, mas ao mesmo tempo, mesmo agora, podemos ter consciência de que isso não é tão ameaçador, porque não é sólido. Não é preto e branco. Essas reações internas não criam consequências negativas, portanto não são perigosas nesse sentido. Eles são semelhantes a quaisquer outros pensamentos que não geram consequências, a menos que você seja apegado a eles e os aumente.

Em segundo lugar, se você puder evitar ser pesado consigo mesmo, você também pode permitir que sua habilidade como um praticante ou uma pessoa atenta evite a confusão comum, e mantenha seu senso de sanidade além dessas reações. Quando você pode permanecer despreocupado e observar tudo isso como faria com as emoções de uma criança, ela se desgastará muito rapidamente e ajudará a queimar as sementes na corrente mental. Quando isso acontece algumas vezes, ou depois de muitas vezes, em algum momento a pessoa ganha confiança real.

Com essas ferramentas, embora você ainda possa reagir, isso não o deixa totalmente dominado ou controla você. Você não se torna mais a reação, perdendo o senso de sua própria sanidade. Você não perde o fio do trabalho que está fazendo para se tornar são e se tornar livre para ir além.

A maior parte do tempo as pessoas não são muito conscientes. Então, elas não estão cientes de que estas são simplesmente reações, que reações acontecem e que uma pessoa não é a reação que está tendo. Há uma pessoa separada, uma pessoa inteira, mas esta é apenas uma parte muito pequena do todo que está reagindo.

Muitas vezes há alguma confusão sobre isso, que também é falta de consciência. É como se uma pequena parte do todo fosse vista como a coisa toda. Não apenas isso, mas ao mesmo tempo há um tremendo julgamento sobre o quão ruim isso é, ou o quão terrível.

Assim, pode haver uma quantidade considerável de autoagressão que surge junto com essa falta de consciência. A mente inconsciente reage automaticamente de forma agressiva e rotula o comportamento como errado ou horrível. Internamente, exibimos uma visão puritana do eu, uma expectativa de que deveríamos ser tão puros quanto o Buda, sem nenhuma reação, e então tentamos evitar que tudo isso explodisse lá dentro.

Esse tipo de dinâmica acontece dentro de si e causa explosões. Isso nos impede de poder trabalhar com a mente de forma madura e de acordo com as práticas que aprendemos. Podemos nos esforçar para alcançar o equilíbrio, primeiro tendo consciência de que tais reações existem e, então, não precisando reprimir ou condenar a nós mesmos ao mesmo tempo.

 

Leia a Parte 2 deste artigo aqui.

 

Artigo originalmente publicado em Mangala Shri Bhuti e traduzido por Daniele Vargas

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