Artigo - ATENÇÃO, MEDITAÇÃO,

Uma prática de atenção plena que você pode tentar hoje mesmo: deixe ir!

O passado dói e gatilhos emocionais possuem um modo de nos manter presos em nossos caminhos. A prática de deixar que tudo se vá nos ajuda a seguir em frente.

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imagem po sawitreelyaon Adobe Stock

A observação de que não somos “o eu” que acreditamos ser esteve no coração dos ensinamentos sobre atenção plena por milhares de anos. Enquanto que tendemos a enxergar a nós mesmos como entidades sólidas, fixas, por debaixo do nosso controle central, uma investigação minuciosa revela que não há tal coisa a qual podemos categoricamente chamarmos de “eu”, ao menos em termos de uma identidade independente, imutável. Não é que nós não existamos, mas sim, que nós não existimos da maneira com que habitualmente imaginamos a nós mesmos.

As pessoas geralmente descobrem isso em um curso de atenção plena quando percebem que “os pensamentos não são fatos”. Ao ver que pensamentos automáticos (geralmente com um viés negativo) surgem o tempo todo em nossas mentes sem a nossa permissão consciente, começamos a ver como aquilo que chamamos de “eu” se trata mais de um agrupamento de tendências, algumas mais, outras menos sob nossa direção. Todas essas tendências estão continuamente em processo, sutilmente mudando de forma o tempo todo.

Se conseguirmos aceitar que não somos “eus” sozinhos, independentes, fixos, quais são as implicações disso? Primeiro de tudo, significa que não estamos em completo controle – não importa o quão forte tentemos, nós não podemos controlar nossos corpos para que eles não envelheçam ou adoeçam, e não podemos simplesmente decidir sermos felizes sob qualquer circunstância, ou impedir sensações ou pensamentos indesejados. Nós também não estamos encarregados do nosso ambiente: de um clima desagradável a pessoas que consideramos difíceis, existem aspectos do nosso mundo, internos e externos, que nós não estamos no poder de alterar. Ao aceitar isso, nós podemos parar com algumas de nossas brigas com algumas partes inevitáveis da vida das quais não gostamos tanto. Nós podemos parar de tomá-las de maneira tão pessoal.

É também uma oportunidade para a compaixão: nós podemos reconhecer que não somos exclusivamente responsáveis por nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos, os quais são todos o resultado de uma grande miríade de causas e condições em nossos corpos, cérebros, mentes e ambiente. Nós podemos parar de nos culpar, reconhecendo que as situações em nossas vidas nem sempre foram livremente e completamente escolhidas. Nós podemos suavizar para nós mesmos e, vendo que o mesmo é verdadeiro para os outros, podemos suavizar para eles também, mesmo quando eles fazem coisas com as quais não concordamos ou não gostamos.

Ao mesmo tempo, podemos reconhecer que não estamos completamente presos. Se nós somos uma variedade de processos mudando ao invés de uma entidade única e sólida, isso não significa que, só porque as coisas estão difíceis, nós estejamos fundamentalmente quebrados. Não importa quais sejam nossos problemas, existe espaço para manobra. Nossos cérebros podem mudar, nossos corpos podem mudar, nossas mentes podem mudar, e nossas vidas podem mudar. Não importa o que está acontecendo nesse exato momento, agradável ou desagradável, nós podemos ter a certeza de que isso está no caminho de se tornar outra coisa.

Aceitar que as situações não são tão simples ou tão presas quanto imaginamos pode fazer com que as sintamos mais trabalháveis, mesmo que no meio de um grande desafio. Ao apreciar que existem muitos aspectos para qualquer circunstância, nós podemos começar a ver onde se encontra o espaço de manobra – onde possuímos alguma capacidade de agir para efetuar mudanças hábeis. Nós também podemos enxergar melhor o momento de deixar que as coisas repousem. Tocando na consciência – reconhecendo onde se encontram os pontos de escolha – nós podemos usar nossa energia efetivamente.

Solidificar a nossa experiência de momento-a-momento em “individualidade” é um hábito poderoso – não é fácil enxergar através disso, e esse é um aspecto da atenção plena que geralmente é deixado de fora talvez por ser muito difícil para ser compreendido ou muito desafiador. Contudo, tradicionalmente, é também a chave para a liberação do estresse, que é o motivo pelo qual eu incluí um capítulo no livro Mindfulness: How To Live Well By Paying Attention (do qual parte do blog mindful.org foi adaptado).

Quando paramos de tentar nos segurar a nós mesmos ou a qualquer outra coisa, nós na verdade nos tornamos livres para viver em paz. A meditação é uma das melhores maneiras de se praticar isso. Quando meditamos, nós percebemos como os pensamentos, sensações e eventos estão em fluxo. Nós praticamos deixar ir – ao invés de nos mantermos sendo pegos em nós mesmos e tratando cada mudança como sendo uma afronta pessoal, nós aprendemos a viver mais levemente. E como o mestre de meditação Thai, Achaan Chah, o coloca: “Se você deixar ir um pouco, você terá um pouco de felicidade. Se você deixa ir muito, você terá muita felicidade. E se você deixa ir completamente, você será livre.”

 

Artigo publicado originalmente em mindful.org e traduzido por Fábio Valgas