Artigo - ATENÇÃO, EQUILÍBRIO EMOCIONAL, MEDITAÇÃO,

Uma prática antidepressão clássica e natural

O psicólogo Elisha Goldstein fala sobre como a prática de atenção plena pode ajudar no tratamento da depressão.

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Todo mundo, em determinado momento da vida, será afetado pela depressão, seja ela sua própria ou de alguém próximo. Somente nos EUA, aproximadamente 19 milhões de pessoas passam por períodos onde enfrentam sintomas como a falta de prazer ou interesse em suas atividades usuais combinada a uma sensação de corpo pesado e cansaço, exageradamente emotivos ou anestesiados. Sem falar no ataque contínuo de pensamentos negativos e auto-depreciativos que podem permanecer invadindo nossas mentes continuamente.

Quanto mais períodos desse “humor deprimido” nós temos, maiores são as chances de acabarmos caindo neles novamente. Por que essa recaída acontece, e como a prática de atenção plena pode oferecer alguma esperança?

Cair em depressão se trata de um evento traumático, e assim como ser mordido por um cachorro nos torna temerosos e super sensíveis com relação aos cachorros em geral, nossas mentes e corpos tornam-se super sensíveis à associações à depressão, fazendo com que reajamos ao menor sinal dela.

Sentir-se de mau humor é algo normal para qualquer um, porém, se já passamos por uma depressão no passado, isso pode se transformar num gatilho para que pensemos que a depressão está prestes a começar novamente.

Se nos sentimos cansados ou tristes, a mente surge com a preocupação: “espera um pouco, é assim que eu me sentia quando estava com depressão, então talvez eu esteja ficando deprimida novamente”. Nossas mentes começam a entrar num modo que é sobrecarregado por pensamentos negativos e de autojulgamento, como “eu sou uma fracassada” ou “eu sou uma inútil, uma fraca”. E então, ela tenta desvendar o mistério do porquê de nós estarmos ficando deprimidos novamente, e quanto mais a mente tenta desvendar esse quebra-cabeça, mais profundamente ela se afunda em depressão.

Pense numa pessoa julgadora e preocupada tentando te ajudar a resolver os seus problemas justamente no momento em que você não está se sentindo bem. Provavelmente não é o que você procura.

Perceba que o problema aqui não se trata do mau humor em si, mas da maneira como ficamos presos ao hábito de nos identificarmos com esse mau humor. Isso é o que acaba jogando querosene na fogueira, com nossas mentes a continuamente soprarem esse fogo por meio da ruminação, nos levando a uma depressão completamente acesa.

 

Como a prática de atenção plena pode nos ajudar?

A prática de atenção plena nos ensina uma nova forma de como nos relacionarmos com nossos pensamentos, sentimentos e emoções enquanto estes surgem. Trata-se de aprender a reconhecer o que quer que esteja acontecendo no momento presente sem que as nossas “lentes de julgamento” interfiram, apenas permanecendo com aquilo que surge, ao invés de evitá-lo ou de precisar consertá-lo. É a tentativa da mente de fugir e de concertar as coisas nesse momento que abastecem o mau humor.

Se a tristeza está aqui, neste momento, ao invés de tentarmos consertá-la ou entendê-la, nós podemos apenas reconhecer a sua presença e deixá-la estar. Se surgir algum tipo de autojulgamento (por exemplo: eu sou fraca, sou uma perdedora, etc) devido a sensibilidade derivada de um estado depressivo pelo qual passamos anteriormente, nós podemos reconhecer que essas são associações do passado, deixá-las estar, e então gentilmente nos trazer de volta àquilo que estávamos fazendo. Ao fazermos isso, nós paramos o ciclo ruminativo que pode acontecer entre pensamentos, sentimentos e sensações físicas que, por sua vez, podem ficar se alternando entre si e acabar nos levando a uma nova recaída.

Agora, é claro que isso é mais fácil falar do que fazer, e por isso é preciso de prática.

 

Aqui está uma prática antidepressiva clássica e natural

Uma forma de praticar atenção plena é usando a respiração como objeto de atenção. Você pode direcionar sua atenção para ponta do seu nariz ou para a sua barriga. Durante a inspiração, apenas reconheça o ar entrando, e durante a expiração, apenas reconheça o ar saindo. Faça isso como se você estivesse cumprimentando e dizendo adeus a uma velha amiga.

Quando a mente divaga, como ela sempre o fará, apenas diga a si mesmo: “divagando”. E assim, gentilmente traga sua atenção de volta à respiração, apenas reparando na oscilação do ar entrando e saindo. A maioria de nós acaba tendo que repetir esse processo bilhões de vezes, então saiba que é normal que a mente divague constantemente. Você pode fazer isso durante apenas 1 minuto ou até mesmo 30 minutos ou mais.

Pratique isso nos momentos em que você estiver se sentindo bem e será mais fácil reconhecer quando a mente começar a divagar em ruminações e auto julgamentos naqueles momentos em que você não estiver se sentindo bem. Se você se sente mal e a mente começa a ruminar, da mesma maneira como você havia praticado com a respiração, apenas categorize esse movimento como “ruminação” e então gentilmente traga sua atenção de volta para aquilo que você estava fazendo.

Tornando-se mais presente, você também pode adquirir a habilidade de se tornar mais flexível e, assim, conseguir promover atos como ligar para um amigo ou fazer alguma coisa que te dê prazer ou que te faça se conectar aos outros nesses momentos de recaída. Este é um ato de autocuidado que nos ajuda a interromper o ciclo de ruminação e promove o cultivo de uma maior paciência, compaixão e paz.

Também pode ser útil seguir práticas guiadas por áudio ou pessoalmente. No entanto, sem dúvidas que você pode praticar por si só da mesma forma.

Calorosamente,
Dr. Elisha Goldstein.

 

Texto originalmente publicado em psychcentral.com e traduzido por Fábio Valgas.

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