Artigo - EQUILÍBRIO EMOCIONAL, MEDITAÇÃO, MOTIVAÇÃO, SABEDORIA,

Um remédio para as emoções perturbadoras

“Em tudo o que eu fizer, observarei a minha mente.
Assim que surgirem aflições,
Eu irei enfrentá-las diretamente e transforma-las,
Pois elas colocam em perigo os outros e a mim também.”
Geshe Langri Thangpa

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Todos já ouvimos a afirmação de que a melhor maneira de lidar com a raiva é dar vazão a ela. Uma crença comum permeia o ocidente: permitir que a raiva se expresse livremente é uma maneira saudável de entrar em contato com as próprias fraquezas e sombras. Sabemos que meramente reprimir a raiva pode gerar algo ainda pior em nosso inconsciente, porém, há um problema nessa abordagem: cada vez que expressamos raiva estamos criando um imprint mental para ficarmos raivosos novamente – e com mais facilidade. Dessa forma, ao expressar raiva toda vez que ela surgir, teremos cada vez menos autocontrole e estaremos cada vez mais escravizados pelo seu poder destrutivo.

A sabedoria oriental apresenta formas diferentes para lidar com essa questão, abordagens que estão além da livre expressão e da repressão. Uma delas é pura observação do conteúdo mental que se forma num momento de raiva – ou de qualquer outra emoção destrutiva. Assim que a emoção surge, observa-se e simplesmente permite-se que ela se forme e se desfaça na mente. Sem envolvimento, sem engajamento, sem ação. Dessa forma não deixamos nenhum vestígio em nosso fluxo mental, como acontece ao deixarmos que ela se exteriorize. Tampouco estamos suprimindo o sentimento e criando uma bomba-relógio em algum canto escuro da nossa mente.

No entanto, podemos pensar que a raiva e todas as emoções destrutivas são uma parte fundamental da nossa consciência humana e que não deveríamos tentar lutar contra nós mesmos. Em seu livro “Felicidade”, Matthieu Ricard nos apresenta um belo paralelo entre as emoções destrutivas – a raiva, o ciúme, a avidez, etc – e as doenças. Ambos são fenômenos naturais, parte da vida de todos os seres humanos, porém assim como não nos conformamos em estarmos doentes e nem recebemos a doença como um integrante desejável da vida, agindo para que ela cesse e a nossa saúde volte a se estabelecer, da mesma maneira devemos tratar as emoções perturbadoras, fontes de confusão e sofrimento ainda maiores do que uma doença comum.

 

O caminho para a cura

O reconhecimento do impedimento causado por essas emoções para o nosso completo bem-estar e seu poder de destruição, observando suas repercussões negativas a curto e longo prazo, é o primeiro passo. Mas Matthieu nos explica que após o reconhecimento é preciso familiarizar-se com cada antídoto – a bondade como antídoto para o ódio, por exemplo – até que a ausência de ódio se torne uma segunda natureza: “A palavra tibetana gom, em geral traduzida por “meditação”, significa “familiarização”, e a palavra sânscrita bhavana, também traduzida por “meditação”, significa “cultivo”. Com efeito, meditar não é sentar-se à sombra de uma árvore e relaxar para usufruir de um momento de pausa na maçante rotina diária, mas familiarizar-se com uma nova visão das coisas, um novo modo de gerir os seus pensamentos, de perceber as pessoas e experienciar o mundo dos fenômenos.” A familiarização portanto, surge através da meditação conduzida por diversos métodos com uma mesma meta: nos ajudar a deixar de sermos vítimas das nossas próprias emoções negativas.

Matthieu nos mostra três métodos principais: os antídotos, a liberação e a utilização. O primeiro consiste em aplicar um antídoto específico para cada emoção negativa como já exemplificado. O segundo nos permite “liberar” ao olhar diretamente para ela e observar dissolvê-la. O terceiro método consiste em usar a força natural de cada emoção como um catalisador para a transformação interior.

O uso de um antídoto se baseia no fato de que não é possível que dois processos mentais opostos surjam ao mesmo tempo na mente. Podemos oscilar muito rapidamente entre amor e ódio, por exemplo, mas não senti-los no mesmo instante de consciência. Desta maneira, fundamentalmente trabalhamos continuamente para diminuir a mente egoísta e desenvolvemos uma mente altruísta.

Já a liberação baseia-se no conceito de vacuidade: a absoluta falta de realidade intrínseca e de solidez de todos os fenômenos. Ao examinar uma emoção no momento em que ela surge, questionando por exemplo: Onde exatamente ela está? Como ela é? De onde ela veio? Para onde ela vai? Qual é o seu tamanho? etc, mudando completamente o foco do objeto de raiva para a raiva em si, é possível observar que a emoção não se sustenta como uma realidade e que é a nossa fixação e imediata identificação as verdadeiras causas de sofrimento. “Nos agarramos à emoção vendo-a como algo real. Inicia-se, então, por causa desse eu fictício, uma reação em cadeira durante a qual a centelha inicial, que é a claridade e o foco, transforma-se em raiva e hostilidade. A habilidade que nos vem da experiência meditativa nos ajuda a intervir antes que essa reação se inicie.” Matthieu explica que a partir de uma brusca mudança de ponto de vista e tendo aprendido a evitar a fixação, não será mais necessário o uso de antídotos externos; as próprias emoções agirão como catalisadores para nos liberar da sua influência nociva.

Nenhum desses métodos são fáceis e nem trazem resultados imediatos. O ego ao sentir sua hegemonia ameaçada cria subterfúgios para se proteger. Porém, é preciso ter em mente que assim como é necessário tempo e esforço para desenvolvermos qualquer habilidade, seja em esporte, música, etc, a mesma dedicação – na verdade, uma ainda maior – é exigida para tornar-se um ser humano verdadeiramente compassivo e equilibrado.

 

EXERCÍCIO
Liberação direta das emoções
Retirado do livro “Felicidade” De Matthieu Ricard

Traga à sua mente uma situação em que você sentiu muita raiva e tente reviver essa experiência. Quando a raiva surgir, focalize sua atenção nela mesma, em vez de olhar para o objeto da raiva. Não se deixe assimilar por essa raiva, mas olhe para ela como se fosse um fenômeno separado. Ao manter-se apenas nessa observação da raiva em si mesma, veja que ela pouco a pouco se dissolve sob os seus olhos.

Mas pode ser que ela continue surgindo em sua mente, e você se sinta incapaz de pacificá-la. Ela segue assim tão vívida e forte porque a sua mente, indefesa, fica sendo levada como objeto do seu ressentimento. Esse objeto se torna uma espécie de alvo e, cada vez que você volta a ele, uma centelha mental é disparada e a emoção se acende novamente. Você sente que é como se ela invadisse a sua mente, como se você tivesse sido capturado em um círculo vicioso. Em vez de prestar atenção no “alvo”, volte sua atenção para a emoção em si mesma. Você verá que a raiva não conseguirá se sustentar, e logo ficará sem força alguma.

Use a experiência que você adquiriu nas sessões de meditação e tente aplicar esse processo de liberação na sua vida diária. Depois de algum tempo, a sua raiva ficará cada vez mais transparente, e a sua irritabilidade desaparecerá.

Pratique do mesmo modo com o desejo obsessivo, a inveja e outras emoções dolorosas.

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