Artigo - ATENÇÃO, MEDITAÇÃO, MOTIVAÇÃO, QUOTIDIANO,

Temperar o dia com momentos de atenção plena

Alan Wallace fala sobre a importância de introduzir momentos de mindfulness ao longo do dia.

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Durante seu retiro recente no Garrison Institute, falamos com o professor de meditação e erudito Alan Wallace sobre como cultivar a quietude, aumentar a produtividade e determinar se uma determinada atividade é significativa.

 Muitas pessoas têm a sensação de estar sempre muito ocupadas e distraídas no dia a dia. O que está por trás disso? Se a pessoa praticar meditação regularmente, essa sensação desaparece?

Há uma vasta gama de práticas meditativas que podem ser muito úteis de muitas diferentes maneiras. Mindfulness pode ajudar-nos a evitar a ruminação. O cultivo da bondade amorosa pode fazer surgir gentileza e um senso de cuidado e de amorosidade no coração. Mas, seja qual for o método que estamos aplicando, as práticas provavelmente ocuparão uma pequena porcentagem do nosso dia. Assim, embora os métodos em si possam ser muito úteis, o que é mais importante, na verdade, não é quanto tempo passamos na almofada ou necessariamente que método ou técnica usamos, mas sim, a qualidade de mente que estamos mantendo como base. E para a maioria das pessoas – estudos psicológicos mostram isso muito claramente – a base é a ruminação. Cerca de 80% do tempo, as pessoas estão pensando em algo diferente da realidade que se apresenta naquele momento – estão vagueando em um futuro imaginário ou em um passado que já deixou de existir. Não é muito produtivo, e além disso é muito cansativo.

Podemos transformar esse hábito em algo que não seja exaustivo e que seja produtivo. Mas isso requer mais do que simplesmente aplicar uma técnica aqui e ali. O tempo que passamos formalmente na meditação é o momento de semear, por assim dizer. Mas essas sementes precisam ser nutridas, adubadas e regadas ao longo do dia, e isso sim pode trazer alguma mudança significativa.

Vivemos em um ritmo muito acelerado. Portanto, a primeira coisa a fazer é cultivar uma sensação de calma, porque andamos por aí cronicamente e habitualmente tensos, contraídos e estressados demais, em corpo e mente. Esse é o padrão, mas também podemos aprender a relaxar, liberar a tensão do corpo e deixar que a respiração flua sem impedimentos ao longo do dia – não por apenas por 15 minutos quando estamos meditando, mas também adotar como padrão. Quando não há nada em que você precise pensar, então solte os pensamentos, volte ao momento presente e permaneça atento, presente e lúcido.

Faça isso 30 segundos aqui, um minuto ali, 20 segundos aqui, 2 minutos lá, durante todo o dia. Isso é o que eu chamo de “temperar o dia”.

 

Você mencionou que esse tipo de prática pode ajudar as pessoas a se tornarem mais produtiva. Você pode falar um pouco mais sobre isso? O que estamos produzindo e por quê?

Todos nós queremos ser produtivos, mas, você está certo, alguns de nós deveriam produzir menos. Se o que temos em mente não é útil para ninguém, exceto talvez para nós mesmos e para o nosso próprio bolso, então eu preferiria que fôssemos menos produtivos. Quando somos produtivos, se não estivermos fazendo algo que beneficie o mundo, estaremos perdendo nosso tempo ou fazendo algo destrutivo. Existem apenas três categorias de atividades: positiva, negativa ou neutra. Mas na medida em que temos aspirações significativas, então seria bom, claro, se pudéssemos ser mais eficientes, eficazes e capazes de agir com menos desgaste.

Para isso acontecer, mais uma vez voltamos ao tema de cultivar e sustentar a calma no corpo e na mente – uma tranquilidade contínua, uma presença mental, uma quietude interior ­– aí então podemos passar da quietude para a atividade. Quando a atividade acabar, voltamos à quietude. Desta forma, não ficaremos perpetuamente, cronicamente e viciadamente envolvidos em passar o tempo todo saltando de uma atividade para outra, muitas das quais podem ser uma completa perda de tempo.

Portanto, por “produtividade”, quero dizer que podemos nos concentrar na tarefa que temos em mãos por um período prolongado sem distração, sem cairmos em TDAH – seja na hiperatividade ou no déficit de atenção – se houver uma sensação subjacente de calma, se não estivermos nos sentindo frenéticos, acelerados, tensos e estressados. Assim poderemos nos dedicar às nossas tarefas com frescor e lucidez, e seremos capazes de acessar os nossos reservatórios de criatividade e de intuição. Isso dá à nossa produtividade uma qualidade de clareza e de precisão.

 

Você tem alguma recomendação sobre como as pessoas podem saber se o que estão produzindo é valioso e se vale a pena prosseguir? Como se pode ter certeza de que estão agindo a partir desse lugar de lucidez que você acabou de descrever?

Em termos de avaliar se a nossa atividade no mundo vale a pena, eu, em primeiro lugar, me concentraria na motivação. Você está se dedicando a uma tarefa que, de outras perspectivas, poderia parecer completamente mundana e simplesmente ser apenas uma maneira de ganhar a vida? Digamos, por exemplo, que você fica atrás de uma caixa registradora em um supermercado, recebendo o dinheiro das pessoas e entregando a elas o troco e assim por diante. Eu poderia dizer: “Bem, essa é uma maneira de ganhar a vida, mas, nossa… é muito vazia.” Se a motivação for vazia, então a tarefa também será. Mas motivação é tudo. Você pode ter uma atividade e um meio de vida muito mundano e inútil, apenas para conseguir dinheiro, ou você pode assumir esse mesmo trabalho trazendo gentileza, cuidado e atenção. Se você oferecer bondade àqueles com quem está se encontrando, então qualquer tarefa pode ser realmente muito significativa. Não porque você está fazendo isso de uma maneira diferente – você está fazendo a venda com mais ou menos rapidez ou qualquer coisa assim ­– mas porque a sua motivação pode mudar tudo.

Por outro lado, digamos que você seja um médico, um professor, um enfermeiro ou esteja em qualquer outra posição de atender pessoas, se a motivação for apenas ganhar dinheiro, aumentar sua reputação ou influência, conseguir uma promoção e assim por diante, então, internamente, graças à motivação isso não é muito significativo.

A questão seguinte, claro, é avaliar se o que fazemos com a nossa motivação está funcionando. É realmente algo que vale a pena fazer? Para responder a essa pergunta, eu olharia em duas direções. Primeiro, o que está fazendo por você? Você vê que está amadurecendo e crescendo, que as qualidades que você valoriza estão sendo nutridas conforme passam os dias, as semanas, os meses? Se for assim, então esta é uma atividade internamente significativa. Por outro lado, observe o impacto. Veja como você está influenciando aqueles ao seu redor. Se você achar que há algum benefício, que você está ajudando as pessoas a resolver problemas, então isso é uma coisa maravilhosa. Se você está ajudando as pessoas ao seu redor a encontrar o que elas procuram em termos de felicidade, e de sua parte há uma boa motivação, então você pode ter certeza de que é significativo. Você está impactando o mundo e ajudando a resolver problemas, aliviando o sofrimento e a angústia, e ajudando as pessoas a encontrar a felicidade que procuram. Isso não precisa ser em grande escala. Não tem que ser algo que chama muita atenção. Pode ser de forma bem discreta. Mas com sete bilhões de pessoas neste planeta, se, dessas maneiras discretas estivermos contribuindo para o bem-estar daqueles que nos rodeiam e ajudando a aliviar o sofrimento, isso é certamente significativo.

Texto publicado originalmente no site do Garrison Institute e traduzido por Jeanne Pilli publicado em Sukha.net.br.

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Escrito por
Alan Wallace

Palestrante dinâmico, Ph.D. e um dos mais prolíficos escritores e tradutores do budismo tibetano no Ocidente. Procura continuamente formas inovadoras para integrar práticas contemplativas com a ciência ocidental.

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