Artigo - MEDITAÇÃO, MOTIVAÇÃO,

Shamata e Vipassana

Meditação para emagrecer, meditação para relaxar, meditação pra perder ansiedade, meditação pra dormir melhor, meditação para alta performance, etc, hoje em dia existem meditações focadas em resolver os mais diversos tipos de problemas. Mas este é realmente o objetivo da meditação?

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Meditating

Todas essas meditações que tem como objetivo resolver um determinado problema focam no que originalmente seria apenas um efeito colateral do que de fato é meditar. É como se fossemos comer um prato caríssimo, super requintado, com uma receita com ingredientes especiais e raros, trazidos de lugares muito distantes, com o único objetivo de sujar um prato.

Além disso, a motivação para meditar muitas vezes parte da mesma mentalidade de consumo e ganho com a qual levamos a vida e que a meditação deve justamente desmantelar. “Muitas pessoas pensam que a meditação é algo que você tem que ganhar. Incorporamos a ideia de que, de alguma forma, é algo que temos que nos forçar a fazer e no final teremos sucesso ou fracassaremos. E acho que é muito importante perceber que não tem nada a ver com isso. Isso é apenas o ego que quer ser um meditador.”, explica a monja Tenzin Palmo.

O objetivo de sentar em silêncio e focar na respiração (ou em qualquer outro objeto) é antes de qualquer coisa, se familiarizar com a própria mente. É um treinamento para começar a olhar para toda a bagunça e confusão interna. O objetivo inicial é olhar essa confusão criando um senso de alerta, de separação entre eu e a confusão, entre o observador e o conteúdo mental. O objetivo aqui é aprender a não ser totalmente carregado por tudo aquilo que surge na mente. Em um segundo momento, quando já familiarizados com esse processo, o objetivo é ser capaz de olhar para os pensamentos, emoções, e tudo que surge na mente, compreendendo como esse conteúdo mental se forma. Nas tradições orientais esses estágios são chamado de Shamata e Vipassana.

Shamata é a meditação de tranquilidade, geralmente com um foco, é o início da familiarização com tudo o que ocorre na nossa mente. Já que estamos acostumados a nos identificar com os pensamentos conforme eles vão surgindo, automaticamente nos agarramos ao conteúdo mental e somos facilmente levados por eles. Em grande parte do tempo são pensamentos triviais que ocupam a nossa mente, mas volta e meia alguns pensamentos aflitivos, carregados de uma energia, nos invadem, é a isso que chamamos de emoção negativa. É aqui que mora o perigo. Ao surgirem emoções aflitivas, como raiva, inveja, etc, se nós apenas seguimos esses pensamentos, nós iremos agir de forma automática e escravizada, de uma maneira que causa danos diversos para nós mesmos e para os outros. De tão agarrado a esses processos mentais não conseguimos nem mesmo agir de acordo com nossos valores, por alguns instantes, agimos somente como escravos das nossas próprias aflições. Então shamata é o passo inicial para se acostumar a não seguir o conteúdo mental.

Vipassana, uma técnica meditativa que vem a seguir, após já termos alcançado alguma estabilização mental, após já sermos capazes de por algum tempo nos mantermos sem seguir os pensamentos. É a meditação de insight, a meditação onde iremos olhar o conteúdo mental de forma a entender o que é esse conteúdo, de onde vem, para onde vão, onde se localizam, como nos prendem, como ganham força sobre mim, como é esse processo de agarramento e como é o processo para não mais se agarrar. E o resultado de vipassana é uma mente cada vez mais livre. Esse é o objetivo final da meditação: nos dar liberdade frente as nossas aflições, nos dar liberdade frente aos nossos apegos, as nossas aversões, liberdade frente as emoções negativas, liberdade frente a tudo aquilo que se apodera de nós de forma a causar mal para mim mesmo e para os outros.

Ambas as técnicas se complementam e sozinhas não são efetivas, conforme explica o professor Allan Wallace: “Shamatha por si só resulta em um alívio temporário das causas fundamentais do sofrimento, e vipasana por si só apenas fornece vislumbres fugazes da realidade. Somente com o poder estabilizador de shamatha é que os insights obtidos a partir de vipasana saturam completamente a mente, liberando-a finalmente de formas profundamente arraigadas de compreender erroneamente a realidade.”

O objetivo da meditação é algo muito maior do que relaxar, “é aprender a estar presente no momento e em um estado de completa abertura e relaxamento. Não é uma questão de ganhar, é uma questão de perder, de deixar ir, deixar ir e deixar ir.” explica Jetsunma Tenzin Palmo. Meditação é um caminho infalível (desde que haja dedicação de forma persistente e adequada) para cortar a raíz de todos os problemas que nos fazem sofrer. Ao utiliza-la como mero remédio para ansiedade, nervosismo, insonia, etc, estamos somente aparando os galhos e o problema é que eles certamente logo voltarão a crescer.

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  • Leandro Nascimento

    Gostei muito do texto Daniele, parabéns! Simples e esclarecedor. Obrigado!!!