Artigo - ATENÇÃO, MEDITAÇÃO,

Por que achamos difícil meditar

Ed e Deb Shapiro falam sobre alguns obstáculos comuns encontrados por quem está começando a meditar.

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foto por flickr.com:e.magic

O que existe em algo tão simples como sentar-se em silêncio e observar a respiração que nos evoca pânico, medo e até mesmo hostilidade? Não importa quantos estudos hajam provando o valor mental, emocional e físico de se estar quieto, parece haver um número ainda maior daqueles que se recusam a dar uma chance à quietude.

A meditação certamente pode ser desafiadora, ainda mais se não estamos certos do porque a estamos praticando. Pode parecer muito estranho sentar-se e ficar apenas ouvindo a conversa incessante acontecendo dentro de nossas cabeças, e facilmente nos tornamos entediados se ficamos sem fazer nada por muito tempo, mesmo que seja por apenas 10 minutos.

Após anos ouvindo a uma abundância de razões sobre o porquê das pessoas acharem tão difícil meditar, nós refinamos a lista a apenas algumas:

1. Eu estou muito ocupado, não tenho tempo. O que pode ser completamente verdadeiro se você possui crianças pequenas e um trabalho em período integral, e tudo o que isso implica. Contudo, nós estamos falando de, talvez, apenas 10 minutos por dia. A maioria de nós gasta mais tempo do que isso lendo o jornal ou surfando pela internet à toa. Parece que não temos tempo apenas porque preenchemos cada momento com alguma atividade e, assim, nunca apertamos o botão de parar.

2. Eu acho realmente desconfortável ficar sentado por tanto tempo. Se você está tentando ficar sentado de pernas cruzadas no chão, então, sim, ficará desconfortável. Mas você pode sentar-se de maneira alinhada numa cadeira firme e confortável. Ou você pode fazer meditação caminhando, ou ioga, ou tai chi. A meditação em movimento pode ser tão benéfica quanto a meditação sentada.

3. Minha mente não para de pensar: “Eu não consigo relaxar. Não consigo meditar. Simplesmente não consigo! Minha mente não fica quieta; ela voa pra tudo que é lado! Meus pensamentos estão me deixando louco! Eu tento fugir de mim mesmo, tento não olhar para dentro.” Soa familiar?

Surpreendentemente o bastante, tentar fazer com que a sua mente pare de pensar é como tentar parar o vento: é impossível. No ensinamento oriental, a mente é descrita como sendo um macaco bêbado que foi mordido por um escorpião, pois, assim como um macaco que fica pulando de galho em galho, a mente também fica pulando de uma coisa para outra, constantemente distraída e atarefada. Assim, quando você procura sentar-se imóvel e aquietar a mente, você acaba encontrando toda essa atividade maníaca acontecendo e ela parece insanamente barulhenta. Na verdade não se trata de nenhuma novidade, você agora está apenas se tornando consciente disso, sendo que antes você se encontrava imerso nisso, inconsciente de que tal falação era tão constante.

Essa experiência da mente sendo tão ocupada é bastante normal. Alguém uma vez estimou que em uma sessão de meditação de trinta minutos nós podemos ter acima de trezentos pensamentos. Foram anos de uma mente atarefada, anos criando e mantendo o drama, anos de estresse e confusões e auto-centramento, e a mente já não faz ideia de como é ficar parada. Ao invés disso, ela anseia por entretenimento. Não é como se você de repente pudesse desligá-la enquanto medita, significa apenas que você é como qualquer outra pessoa.

4. Existem muitas distrações. É muito barulhento. Foram-se os dias em que nós podíamos desaparecer para dentro de uma caverna e sermos deixados sem incômodos até que emergíssemos completamente iluminados algum tempo depois. Ao invés disso, nós todos precisamos lidar com os sons e as imposições do mundo a nossa volta. Mas – e se trata de um grande mas – nós não precisamos deixá-lo se impor. Carros andando do lado de fora? Tudo bem. Deixe-os ir, apenas não vá junto com eles. A quietude pela qual você procura está dentro, não fora. A experiência da quietude é acumulativa: quanto mais você se senta, então vagarosamente a mente vai tornando-se mais quieta, mais agradável, apesar de qualquer distração que possa haver.

5. Eu não enxergo os benefícios. Infelizmente, aqui é onde você precisa acreditar em nossa palavra. Algumas pessoas entendem o quão benéfica a meditação pode ser após apenas uma sessão, mas para a maioria de nós leva mais tempo – você pode notar alguma diferença após uma semana, ou talvez dois dias de prática. O que significa que você precisa acreditar o suficiente no processo para aguentar e continuar seguindo, mesmo antes de colher seus benefícios.

Lembre-se: músicas precisam ser tocadas durante horas até ser possível acertar as notas e, no japão, pode-se levar até 12 anos para aprender a fazer um enfeite de flores. Permanecer quieto acontece num determinado momento, mas pode levar algum tempo até que esse momento chegue – por isso a necessidade de paciência.

6. Eu não sou bom nisso. Nunca acerto. Na verdade, é impossível falhar na meditação. Mesmo que você passe 20 minutos pensando sem parar em coisas sem sentido, está tudo bem. Não existe certo ou errado e não há uma técnica especial. O professor de meditação da Deb disse a ela uma vez que existem tantas formas de meditação quanto existem pessoas que a praticam. Então tudo o que você precisa é encontrar a maneira que funciona para você (mesmo que você prefira fazê-la de cabeça para baixo) e continuar com ela.

O importante é que você faça as pazes com a meditação. Não ajudará em absolutamente nada se você vir-se obrigado a meditar e depois sentir-se culpado quando deixa de fazer o tempo estipulado ou acaba fazendo apenas 10 minutos quando havia prometido fazer 30. É muito melhor praticar por um curto período de tempo e curtir o que você está fazendo do que sentar-se lá com os dentes cerrados, porque lhe foi dito que apenas 30 ou 40 minutos é que terão qualquer efeito. A meditação é uma companhia a se ter durante a vida, como uma velha amiga a qual você recorre quando precisa de apoio, inspiração e clareza. É para ser apreciada!

7. Isso se trata apenas de uma estranha moda new age. Certamente que é fácil perder-se na ostentação das promessas New Age de felicidade eterna, mas a meditação em si é tão velha quanto as colinas. Há mais de 2500 anos atrás o Buda foi um meditante dedicado que tentou e testou um número de caminhos diferentes para permitir que a mente ficasse quieta. E esse é apenas um exemplo. Cada religião possui a sua própria variação sobre o tema, e todas remetem ao passado ao longo dos séculos. Então não há nada de novo ou estranho aqui.

Em outras palavras, a meditação não se trata de forçar a mente a permanecer absolutamente quieta. Ao invés disso, trata-se de um “deixar ir” da resistência, daquilo que possa surgir: dúvida, preocupação, incerteza e sentimento de inadequação, os dramas que nunca acabam, o medo e o desejo. Toda vez que você percebe que a sua mente está à deriva, sonhando acordado, lembrando-se do passado ou planejando o que está por vir, apenas volte para o agora, volte para esse momento. Tudo o que você precisa fazer é prestar atenção e permanecer com o que é. Mais nada.

 

 

Artigo publicado originalmente em mindful.org e traduzido por Fábio Valgas

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