Artigo - CIÊNCIA, EQUILÍBRIO EMOCIONAL, QUOTIDIANO, SOCIEDADE,

Seriam as nossas memórias ilusões?

Nós tomamos as nossas memórias como gravações perfeitas dos fatos que ocorreram em nossa vida. Mas e se ao invés de gravações perfeitas do que vivenciamos, elas fossem em sua maioria meras histórias fictícias que contamos a nós mesmos numa tentativa de dar sentido às situações da nossa vida? Quem faz esse questionamento é a neurocientista e psicóloga criminal Julia Shaw.

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Do almoço de ontem à forma como me senti quando conheci alguém pela primeira vez, toda memória que tentamos acessar em nossas mentes é tida como um relato fiel de um fato que ocorreu. Porém, tomarmos as memórias como versões sempre confiáveis do que vivemos e não como meras histórias que dão sentido a determinada situação, pode ser um erro.

Julia desenvolveu diversos estudos sobre a memória para investigar essa premissa. Em um desses estudos, ao invés de ir pela via tradicional quando se trata de estudos de memória e verificar falhas ao recordarmos um fato ou confusão com relação a detalhes, Julia tenta o oposto: fazer com que as pessoas se recordem de um fato pessoal que nunca ocorreu.

Recutraram 100 voluntários, que foram levados a crer que estavam fazendo parte de uma pesquisa sobre as suas memórias da infância. Mas o estudo na verdade era para verificar se era possível implantar uma falsa memória sobre cometer um crime. A própria Julia começou esse estudo de forma cética, não acreditando que seria possível convencer qualquer pessoa que ela cometeu um crime no passado, mas ela estava completamente enganada.

 

Implantando memórias

A abordagem com os entrevistados se iniciava com a narrativa de um evento verdadeiro, coletado a partir de conversas com a família – o que na verdade era meramente um truque para ganhar confiança. O passo seguinte era introduzir o fato falso: contar que em determinado momento a pessoa iniciou uma briga tão violenta que a polícia precisou ser chamada. Julia dá detalhes sobre o local e pessoas envolvidas –  sendo o local realmente onde a pessoa esteve durante boa parte da adolescência e os nomes também eram de pessoas que fizeram parte da infância do entrevistado.

Num primeiro momento todos relutam e dizem não saber nada a respeito do que ela relata, definitivamente não conseguem se lembrar do fato. Julia então começa a aplicar uma série de métodos cognitivos para induzir falsas memórias através de exercícios de imaginação. Antes mesmo de dar início, ela já aplica uma pequena, porém eficaz, manipulação: diz que o exercício proposto funciona para a maioria das pessoas, o que faz com que o entrevistado sinta-se compelido a se esforçar para que o exercício funcione. Em seguida, Julia pede para o entrevistado visualizar todos os detalhes da história. Após o exercício de imaginação, na segunda entrevista, a pessoa começa então a transformar a forma como a situação poderia ter ocorrido (a qual foi imaginada) na forma como provavelmente ocorreu. Após um tempo, isso converteu-se facilmente em uma memória sobre o que de fato ocorreu. Na terceira entrevista a memória já estava estabelecida com ricos detalhes. Isso ocorreu com exatamente 70% dos participantes. Todos estes foram convencidos que cometeram um crime na adolescência e lembravam com clareza do ocorrido.

Esse estudo levantou muitas questões sobre as técnicas aplicadas por policiais para confissões de crimes – área de atuação de Julia – mas não é somente nesse ponto que ele levanta algo importante. Ele nos mostra algo apavorante: o que acreditamos ser o nosso passado, a nossa própria história pessoal, pode ser, em algumas vezes, um conjunto de falsas narrativas.

 

A construção das memórias

Toda a construção mental que chamamos de memória são histórias desenvolvidas por nós mesmos após um fato ocorrido. Claro que tentamos aproximar ao máximo essa história do fato, mas não é possível que ela seja totalmente fiel. No mais, essas histórias são acessadas diversas vezes, quando a recontamos a nós mesmos ou a uma outra pessoa. E a cada vez que o fazemos estamos já acessando uma sombra e não o fato ocorrido. Logo, a cada acesso a nossa imaginação tenta reconstruir a lembrança, a sombra, e não o fato. E nessa reconstrução adicionamos, retiramos ou modificamos alguns elementos, distanciando cada vez mais a narrativa do fato que realmente ocorreu. Ao recordarmos, quase sempre nos prendemos a um aspecto e esquecemos outro. Outras vezes realmente inventamos e adicionamos elementos que nem sequer ocorreram, tudo numa tentativa de dar um determinado sentido aquela situação. Um indício dessa dinâmica é como ao longo do tempo mudamos de opinião a respeito de uma mesma situação que ocorreu no passado. Por exemplo com relação a um ex-parceiro. Podemos numa primeira recordação nos relacionar com uma atitude dessa pessoa com muita raiva, mas passado algum tempo ao recordar a mesma atitude, a olhamos com olhos mais brandos, podendo até mesmo sentir simpatia pelo mesmo fato que antes nos causou tanto estress. Isso se deve unicamente porque recontamos a história de formas diferentes para nós mesmos, geralmente colorindo-a com a emoções que estamos vivenciando naquele determinado momento.

 

Ouse questionar a sua própria história

As memórias começam com a percepção e podemos entender muitas coisas sobre o que é percepção, mas um fato é que cada indivíduo possui um filtro perceptivo absolutamente único. Além de termos um aparato sensorial único, nós temos uma visão de mundo única, o que significa que cada um de nós já possui um grupo de valores e também de memórias específicas que trazemos para cada situação vivida que pré-determina a forma como julgaremos aquela situação. Portanto assim que começamos a construir uma memória em cima de fato, ela já se inicia filtrada, contaminada, enviesada.

Quem nós acreditamos ser é construído através de nossas memórias, quem nós pensamos que as pessoas a nossa volta são, idem. E tudo aquilo que eu penso sobre o mundo também se baseia em memórias. Portanto, Julia recomenda que sejamos mais cautelosos, curiosos e principalmente bondosos com as memórias – com as nossas e com as dos outros.

Precisamos ser cautelosos no sentido de estar atento a como estamos lembrando das coisas e tudo que possa estar influenciando a maneira como eu estou me recordando. Como eu estou me sentindo nesse momento? O que me levou a pensar sobre esse determinado assunto? Para quem eu estou contando essa história? Quais as minhas intenções ao recontar esse fato? Etc.

Precisamos ainda ser curiosos ao darmos crédito imediato para as nossas recordações, investigar se aquela lembrança no calor do momento é mesmo tão confiável assim. E por fim, o mais importante: precisamos ser bondosos, ter em mente que não é porque alguém está dizendo algo que é demonstravelmente falso, que isso quer dizer que o outro está mentindo e nem porque alguém (ou nós mesmos) está se recordando de algo que faz muito sentido que aquilo é realmente uma história verídica.

Ter consciência de que somos criadores ativos da forma como enxergamos a nossa própria história pode ser um passo inicial para não cairmos – ou para sairmos – em estados de culpa, tristeza, baixa auto-estima, etc. Essa gentileza com as nossas próprias memórias pode certamente nos levar a uma maior leveza na forma como enxergamos a nós mesmos e ao mundo.

Para saber mais sobre os estudos da Dra Julia Shaw assista a essa palestra no TEDx: