Artigo - SOCIEDADE,

O mito do mocinho/bandido

Hoje em dia, a cultura popular é obcecada pela batalha do bem contra o mau. Fábulas tradicionais nunca o foram. Catherine Nichols analisa quais foram as reais motivações por trás da popularização dessa narrativa e os problemas gerados a partir dela.

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Little Red Riding Hood 1881 por Carl Larsson

A primeira vez em que vemos Darth Vader fazer algo além de respirar pesadamente em Guerra nas Estrelas (1977), ele está estrangulando um homem até a morte. Algumas cenas depois, ele está explodindo um planeta. Ele mata seus subordinados, sufoca pessoas com sua mente, faz todo o tipo de coisas que um mocinho jamais faria. Assim, a natureza do bandido é a de que ele faz coisas que um mocinho jamais faria. Mocinhos não lutam apenas para ganho pessoal: eles lutam pelo o que é certo – seus valores.

Essa física moral não está apenas por trás de Guerra nas Estrelas, mas encontra-se também em séries de filmes como O Senhor dos Anéis (2001-3) e X-Men (2000-), assim como na maioria dos desenhos da Disney. Praticamente todas as nossas narrativas de cultura de massa baseadas em lendas têm a mesma estrutura: mocinhos lutam contra bandidos pelo futuro moral da sociedade. Essas alegorias estão por todos os lados em nossos filmes e histórias em quadrinhos, em Nárnia e em Hogwarts, e mesmo assim, elas não existem em nenhuma lenda, mito ou épico antigo. Nos quadrinhos da Marvel, Thor precisa ser digno do seu martelo e prova sua dignidade com suas qualidades morais. Mas nos mitos antigos, Thor é um deus com poderes e motivos além de qualquer ideia como “dignidade”.

Em lendas antigas, ninguém luta por valores. Estórias individuais podem mostrar as virtudes de honestidade e hospitalidade, mas não há um acordo entre lendas a respeito de quais ações são boas ou ruins. Quando personagens recebem sua punição por terem desobedecido um conselho, por exemplo, provavelmente haverá uma outra estória similar onde o protagonista sobrevive apenas porque desobedeceu um conselho. Defender um conjunto de valores consistente é tão central para a lógica de tramas recentes que as estórias em si são geralmente remodeladas para criar valores para personagens como Thor e Loki – os quais na Edda da Islândia do século 16 possuíam personalidades ao invés de orientações morais consistentes.

Estórias advindas de uma tradição oral nunca tiveram qualquer coisa parecida com um mocinho ou um bandido modernos, apesar de sua reputação, por serem moralizantes. Em estórias como João e o Pé de Feijão e A Bela Adormecida, quem mesmo é o mocinho? João é o protagonista por quem nós deveríamos estar torcendo, ainda assim, ele não possui nenhuma justificativa moral para roubar as coisas do gigante. A Bela Adormecida se importa com bondade? Algum deles luta contra o crime? Mesmo em contos criados para parecerem se tratar do bem contra o mau, como na estória da Cinderela, eles não se dobram a uma simples dicotomia moral. Em versões orais tradicionais, Cinderela precisa meramente ser bonita para que a estória funcione. Em Os Três Porquinhos, tanto os porcos quanto o lobo se utilizam de táticas que o outro lado não hesitaria em acatar. É apenas uma questão de quem consegue o seu jantar antes, e não do bem contra o mau.

A situação é mais complexa em épicos como A Ilíada, que possui dois “times”, assim como personagens que se debatem por entre significados morais. Porém, os times não representam o confronto entre dois conjuntos de valores, como acontece entre mocinhos e bandidos modernos. Tanto Aquiles quanto Heitor não se tratam de representantes de valores que o outro lado não poderia acatar, tampouco eles estão lutando para proteger o mundo do outro time. Eles não simbolizam nada além deles mesmos e, apesar de falarem sobre guerra de modo recorrente, eles jamais citam seus valores como a razão pela qual estão lutando a boa luta. O ostensivo confronto moral entre o bem e o mau é uma invenção recente que evoluiu em conjunto com o nacionalismo moderno – e, em última instância, dá voz a uma visão política, e não a uma visão ética.

A maioria dos estudos acadêmicos sobre lendas desde a Segunda Guerra Mundial esteviveram interessados no estudo dos arquétipos ou semelhanças entre lendas, tendo como motivação implícita que, se os mitos e estórias de todas as nações tivessem mais similaridades do que características que as dividem, do mesmo modo, as pessoas de todas as nações poderiam ter mais coisas em comum do que diferenças. Foi uma ideia radical quando lendas mais recentes foram publicadas especialmente para mostrar como as pessoas de uma nação eram diferentes daquelas de outra nação.

Em seu estudo sobre lendas, From the Beast to the Blonde (1995), a autora inglesa e crítica Marina Warner rejeita a leitura de lendas, popularizada pelo psicólogo infantil Bruno Bettelheim, como sendo um conjunto de analogias para nossas dificuldades psicológicas e de desenvolvimento. Warner argumenta que, ao invés disso, circunstâncias externas fazem com que essas estórias ressoem com seus leitores e ouvintes através dos séculos. Ainda, ambos acadêmicos procuram traçar as alegorias em comum entre as lendas e os contos de fada, contanto que elas se mantenham as mesmas, ou similares, ao longo dos séculos.

Romancistas e cineastas que baseiam seus trabalhos em lendas também parecem focar-se em similaridades. George Lucas explicitamente baseou Guerra nas Estrelas no livro de Joseph Campbell The Hero with a Thousand Faces (1949), que descreve a jornada de um personagem assim como Luke Skywalker, como um humano universal. J R R Tolkien usou sua erudição em épicos do inglês antigo para reformular as estórias num cenário atemporal, alternativo; e muitas histórias em quadrinho explicitamente ou implicitamente reciclam lendas e mitos antigos, mantendo vivos tópicos compartilhados por estórias novas e antigas, ou que estórias antigas de diferentes sociedades ao redor do mundo compartilham entre si.

Menos discutida é a mudança histórica que alterou a natureza de tantas recontagens modernas de lendas, entenda-se: a ideia de que pessoas em lados opostos de conflito possuem diferentes qualidades morais e lutam por seus valores. Essa mudança reside na dicotomia mocinho/bandido, onde as pessoas não lutam mais por “quem fica com o jantar”, ou quem fica com Helena de Tróia, mas por aquele que assume a mudança ou melhoramento dos valores da sociedade. Os mocinhos defendem aquilo em que acreditam e estão dispostos a morrer por essa causa. Essa alegoria é tão onipresente em nossas estórias modernas, filmes, livros, e até mesmo em nossas metáforas políticas, que às vezes se torna difícil enxergar o quão nova ela é, ou o quão bizarra ela se parece, considerada sob a luz da ética ou da narrativa.

Quando os Irmãos Grimm escreveram suas lendas locais no século XIX, seu objetivo era usá-las para definir o Volk Alemão, e unir o povo alemão em uma nação moderna. Os Grimm eram estudantes da filosofia de Johann Gottfried von Herder, o qual enfatizava o papel da linguagem e das tradições folclóricas na definição de valores. Em seu Treatise on the Origin of Language (1772), von Herder argumentou que a linguagem era “um órgão natural da compreensão”, e que o espírito patriota alemão residia na maneira com que a linguagem e a história da nação se desenvolveram ao longo do tempo. Von Herder e os Grimm eram defensores da nova ideia de que os cidadãos de uma nação deveriam estar conectados por um conjunto comum de valores, e não por parentesco ou pelo uso da terra. Para os Grimm, estórias como A Madrinha Morte, ou A mochila, o chapeuzinho e a corneta, revelam a forma pura do pensamento que surgiu de sua linguagem.

A consequência de unir o Volk através da narrativa de um conjunto de características essenciais e de valores é o de que aqueles que se encontram fora dessa cultura eram vistos pelos alemães como faltantes dos valores considerados como seus. Von Herder talvez tenha entendido o potencial para a violência em massa existente nessa ideia, pois ele elogiava a maravilhosa variedade de culturas humanas: especificamente, ele acreditava que os alemães judeus deveriam ter direitos iguais aos alemães cristãos. Mesmo assim, o potencial nacionalista do projeto dos irmãos Grimm foi gradualmente amplificado enquanto sua influência se espalhava através da Europa e folcloristas começaram a escrever livros de folclore nacional especificamente para definir o seu próprio caráter nacional. Ainda, muitas nações modernas começaram a compreender as possibilidades explosivas para o abuso num modo de pensar que engessa “o outro” como um tipo de monstro moral.

Em seu livro The Hard Facts of the Grimms’ Fairy Tales (1987), a acadêmica Maria Tatar observa a maneira como Wilhelm Grimm encaixava, digamos, aforismos sobre a importância de se manter promessas. Ela argumenta que: “Ao invés de chegar num acordo sobre a ausência de uma ordem moral… ele persistia em adicionar pronunciamentos morais mesmo onde não havia moral.” Tais adições estabeleceram a ideia de que eram valores (e não apenas o jantar) que estavam em jogo nos conflitos que essas estórias dramatizavam. Sem dúvida que as adições dos Grimm influenciaram Bettelheim, Campbell e outros folcloristas que argumentavam pela moralidade inerente das lendas, mesmo que elas nem sempre tenham sido contadas como fábulas morais.

Como parte dessa nova consciência nacionalista, outros autores começaram a alterar velhas histórias para fazer uma distinção moral entre, por exemplo, Robin Hood e o Xerife de Nottingham. Antes da releitura de 1795 de Joseph Ritson dessas lendas, estórias escritas anteriormente sobre o fora da lei majoritariamente o mostravam farreando pela floresta com seu grupo. Ele não roubava dos ricos para dar aos pobres até a versão de Ritson – escrita para inspirar uma emergência do populismo inglês após a revolução francesa. A interpretação de Ritson foi tão popular que as releituras modernas de Robin Hood, como no desenho de 1973 da Disney ou no filme O Príncipe dos Ladrões (1991), são mais centralizadas nas obrigações morais dos fora-da-lei do que em suas trapalhadas. O Xerife de Nottingham foi transformado de um simples antagonista a alguém que simbolizava os abusos do poder contra os oprimidos. Mesmo dentro de uma única nação (Robin Hood), ou de uma única família (Cinderella), cada escala de conflito foi reencenada como um conflito de valores.

Ou considere a lenda do Rei Arthur. No século XII, os poetas que escreviam sobre ele eram geralmente franceses, como Chrétien de Troyes, pois o Rei Arthur ainda não era intimamente associado ao espírito britânico. Ainda, seus adversários geralmente eram, literalmente, monstros, ao invés de pessoas simbolizando fraquezas morais. No início do século XIX, quando Tennyson escreveu Idylls of the King, o Rei Arthur torna-se um ideal de masculinidade britânica específico, e batalha contra personagens humanos que representam fragilidades morais. No século XX, a palavra “Camelot” veio a significar um reino idealístico demais para sobreviver na Terra.

Uma vez que a ideia de valores nacionais entraram na nossa narrativa, a física moral peculiar por trás do fenômeno do mocinho contra o bandido tem sido notavelmente consistente. Uma característica narrativa é a de que personagens frequentemente mudam de lado em conflitos: se a identidade de um personagem reside em seus valores, então quando ele muda sua opinião a respeito de uma questão moral ele está essencialmente trocando de lado, ou desertando. Isso nem sempre é reconhecido. Por exemplo, quando na série da PBS Power of Myth (1988) o jornalista Bill Moyers discute com Campbell sobre a quantidade de alegorias antigas das quais Guerra nas Estrelas se dispôs, eles não consideraram o quão bizarro teria sido para antigos contadores de história ter Darth Vader mudando de opinião a respeito da raiva e do ódio e trocando de lado na sua guerra contra Luke e os rebeldes. Contraste isso com A Ilíada, onde Aquiles não se torna um troiano quando ele está com raiva de Agamenon. Nem os gregos nem os troianos defendem algum conjunto de forças ou fragilidades humanas. Desde que seu conflito não se trata de uma metáfora a algum tipo de batalha interna da raiva contra o amor, mudar de lados por causa de uma mudança de sentimentos seria incoerente. Em Guerra nas Estrelas, cada um dos times opostos representa um conjunto de propriedades humanas. O lado em que Darth Vader luta, portanto, depende absolutamente de qual sentimento, raiva ou amor, se sobressaem em seu coração.

Bandidos mudam de ideia e tornam-se mocinhos da exata mesma maneira em inúmeras, ostensivamente folclóricas, histórias modernas: O Senhor dos Anéis; Buffy, a Caça Vampiros (1997-2003); a série Harry Potter (1997-2007). Quando um personagem mau tem uma mudança em seu coração, é sempre um momento de catarse emocional – desde que aquilo que está em aposta para um personagem seja perder uma parte central de sua identidade. Outra peculiaridade na física moral do mocinho contra o bandido é a de que bandidos não possuem lealdade e rotineiramente punem aos seus. Seja o Xerife de Nottingham matando o seu povo de fome ou Darth Vader matando seus subordinados, bandidos são arrogantes com relação a vida humana e repreendem seus aliados por meras transgressões. Isso tem sido verdade desde os bandidos modernos mais recentes, apesar de mal existir dentre adversários antigos, que poderiam estar famintos por carne humana, mas não matariam aos seus.

Mocinhos, por outro lado, aceitam todos os candidatos em seu rebanho e provam sua lealdade mesmo quando seus companheiros de equipe transgridem. Considere Friar Tuck ficando bêbado de cerveja enquanto Robin Hood faz de conta que não vê. Ou Luke Skywalker, acolhendo o trapaceiro Han Solo a seu lado. Mocinhos trabalham com trapaceiros, excêntricos e ex-bandidos, e, além disso, suas batalhas geralmente dependem de alguém que foi maltratado pelos bandidos e atravessou o seu caminho, tornando-se um mocinho. Perdoar personagens por suas malfeitorias é um clímax emocional em muitas estórias de mocinho contra bandido. De fato, é essencial que o lado bom seja um grupo heterogêneo que nunca, jamais irá rejeitar um companheiro soldado.

Novamente, esse é um ponto de orgulho que parece incoerente no contexto de narrativas pré-modernas. Não somente as pessoas em estórias antigas não mudam de lado durante a luta, como Aquiles jamais ganharia porque o seu exército era composto por troianos rejeitados, digamos. Em estórias antigas, grandes guerreiros não se tratam de recrutas desgarrados a serviço da educação moral. Eles são especialistas.

Estórias sobre mocinhos e bandidos que são implicitamente morais – no sentido de que elas investem a totalidade da identidade social do indivíduo em ele não mudar de ideia a respeito de uma questão moral – perversamente acabam desencorajando qualquer deliberação moral. Ao invés de afligir-se por conflitos multidimensionais de personagens em conflito – como encontramos na Ilíada, ou na Mahabharata ou em Hamlet – tais estórias categorizam rigidamente as pessoas de acordo com os valores que elas simbolizam, achatando qualquer deliberação e imaginação de ação ética em um simples “polegar para cima ou polegar para baixo”. Ou a pessoa é aceitável para o Time Bom, ou ela pertence ao Time Mau.

As narrativas mocinho/bandido podem não conter nenhuma sofisticação moral, mas elas, sim, promovem estabilidade social e são úteis para fazer com que as pessoas se alistem em exércitos e lutem em guerras contra outras nações. Seus valores são sentidos como moralidade, e a associação com lendas e mitologia as empresta uma lâmina de legitimidade, porém elas não surgem de uma visão moral. Ao invés disso, elas estão enraizadas numa visão política, e é por isso que elas não nos ajudam a deliberar ou a pensar mais profundamente sobre os significados de nossas ações. Como nas estórias originais dos irmãos Grimm, elas se tratam de uma ferramenta política desenhada para unir nações.

Não é coincidência que filmes de mocinho/bandido, histórias em quadrinho e jogos tenham enormes, apaixonados e voláteis grupos de seguidores – até mesmo a palavra “seguidores” sugere a ideia de uma nação ou reino. Mais ainda, a física moral dessas histórias sobre super heróis lutando a boa luta, ou batalhando para salvar o mundo, não enaltecem um empoderamento genuíno. A única coisa que o mocinho nos ensina é que as pessoas no outro time não são como nós. De fato, eles são tão maus e a aposta é tão alta que nós precisamos perdoar qualquer transgressão feita pelo nosso próprio time no intuito de vencer.

Quando eu conversei com Andrea Pitzer, autora de One Long Night: A Global History of Concentration Camps (2017), sobre o crescimento da ideia de que pessoas em lados opostos de conflitos possuem diferentes qualidades morais, ela disse: “Três invenções colidiram para fazer os campos de concentração possíveis: arame farpado, armas automáticas e a crença de que categorias inteiras de pessoas deveriam estar trancadas”. Quando nós lemos, assistimos e contamos estórias sobre mocinhos em guerra contra bandidos, nós estamos essencialmente nos persuadindo de que nossos oponentes não estariam lutando contra nós, e na verdade eles sequer estariam no outro time, se eles possuíssem qualquer lealdade ou valorização pela vida humana. Em resumo, nós estamos ensaiando a ideia de que qualidades morais pertencem a categorias de pessoas ao invés de indivíduos. É a visão dos Grimm e de von Herder levada a sua conclusão lógica nacionalista que implica que “categorias de pessoas deveriam estar trancafiadas.”

Assistindo a Mulher Maravilha dando um discurso ao final do filme de 2017 sobre preventivamente perdoar “a humanidade” por todas as inevitáveis ofensas do fim da Segunda Guerra Mundial, eu fui lembrada, mais uma vez, de que as estórias de mocinhos e bandidos ativamente geram a virtude de deixar com que o time da casa em um conflito possa se safar de qualquer atrocidade como recurso.

 

 

Artigo publicado originalmente em aeon.co e traduzido por Fábio Valgas

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