Artigo - ATENÇÃO, CIÊNCIA, QUOTIDIANO,

O Mito das Multitarefas

Nós temos a ilusão que realizar múltiplas tarefas nos torna mais eficientes, mas apenas nos torna infelizes. Sharon Salzberg compartilha algumas dicas para fazer um trabalho bem feito sem se sobrecarregar.

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multitasking

A cada momento, aquilo em que prestamos atenção é a realidade. —William James

Nós queremos acreditar que a atenção é infinita, mas não é. Por isso que multitarefas é um termo inadequado. O cérebro pode focar em apenas uma coisa por vez. Nós assimilamos a informação em sequência. Quando tentamos focar em múltiplas tarefas simultaneamente, o que realmente acontece é que nós alternamos entre as tarefas, prestando menos atenção em ambas. Isso não significa que nós não podemos andar e mascar chiclete ao mesmo tempo, é claro. O que nós não podemos é nos concentrar ao mesmo tempo em duas atividades complexas distintas que requerem nossa atenção. Enquanto nós somos capazes de falar ao telefone e mexer o café simultaneamente, nós não podemos manter uma conversa e escrever ao mesmo tempo sem perder informações e tempo. Estudos mostram que quando pessoas são interrompidas e precisam alternar a atenção, eles levam – em média – 50% mais tempo para completar a tarefa e cometem até 50% a mais erros. Isso ocorre porque cada vez que você troca entre tarefas, seu cérebro atravessa um complexo processo de desengatar os neurônios envolvidos em uma tarefa e ativar os neurônios necessários para a outra. Quanto mais você alterna entre tarefas, mais tempo você gasta e mais baixa a qualidade do seu trabalho.

Viciados em sobrecargas de informação, entretanto, muitos de nós estamos nos tornando acostumados e dependentes de distrações. “Bem sucedidas” multitarefas tem sido capazes de ativar o circuito de recompensa do cérebro, aumentando os níveis de dopamina – a substância química do cérebro responsável pelos sentimentos de felicidade. O perigo disso é que a dopamina liberada dá uma sensação de bem estar que nos impede de percebermos que estamos cometendo mais erros. Isso é comparável a sensação que você pode ter enquanto joga nas máquinas caça-níqueis em um cassino. Estimulado e entretido pelas luzes piscando, os sinos tocando e a atmosfera carnavalesca e recreativa, apostadores entram num transe de lazer, viciados na ilusão de estarem ganhando dinheiro, quando na verdade, eles estão indo à falência. É importante estarmos alertas de quanto realizar multitarefas pode nos estimular a agirmos inconscientemente, dando a ilusão de produtividade enquanto rouba nosso foco e prejudica nosso desempenho. “Quando você está andando, ande. Quando você está sentado, sente”, diz um antigo ditado. Pular rapidamente de uma atividade para a próxima, falar ao telefone enquanto folheia papéis e bebe um café com leite, nos faz desperdiçar nossa atenção e nos esquecer mais facilmente. Além da dopamina, realizar multitarefas nos faz liberar adrenalina, e outros hormônios do stress, que contribuem a curto prazo para a perda de memória, bem como a longo prazo causam problemas de saúde. Isso também significa que a informação que aprendemos enquanto realizamos múltiplas tarefas é mais difícil de recuperar mais tarde do que informações que aprendemos enquanto estamos concentrados. Por isso aprender a realizar uma única tarefa num mundo multirarefas é tão vital.

Melhor que dividir sua atenção, é muito mais efetivo fazer pausas frequentes entre intervalos de muita atenção concentrada. O web designer Brian descobriu isso por si mesmo sem nenhum conhecimento em neurociência. “Eu trabalho para um site de notícias comunitário e eu tenho que estar online das nove às cinco.” diz Brian. “Pode realmente fritar o cérebro e ficar tedioso. Eu descobri que se eu tirar dez minutos ou mais para cada hora de trabalho para fazer algo para mim mesmo, como ler o blog de alguém ou fazer uma caminhada, me ajuda a concentrar quando eu retorno para minhas atividades.” Embora isso possa parecer difícil, o aumento de foco de Brian permite que ele volte para a tarefa com maior facilidade. “Em vez de pular de uma coisa para outra – o que é muito tentador com a internet – eu foco no que está na minha frente. Então eu me deixo parar um pouco para dar descanso ao meu cérebro. Quando se trata de trabalho, menos é definitivamente mais em termos de se sentir satisfeito. E eficiente”. Embora isso possa soar contraditório, relaxar nosso foco com intervalos regulares estimula nossa concentração e torna nossa mente mais flexível.

Desmascarando o mito da multitarefa, nós nos tornamos muito melhores no que fazemos e aumentamos a chance de sermos capazes de lembrar dos detalhes do trabalho que estávamos fazendo.

As pausas que nos revigoram

Estar mais em contato com nossas motivações ou intenções pode revelar muito sobre a dimensão ética das nossas ações. Antes de uma conversa, faça uma pausa por alguns momentos para determinar o que você gostaria de extrair dela. Você quer ser visto como certo ou como útil? Você quer promover o progresso ou impedi-lo? Faça uma pausa também ao enviar um e-mail, com as mesmas reflexões: O que eu mais quero ver como resultado dessa comunicação? A outra parte se sente diminuída ou desencorajada? Isso aumenta ou diminui o envolvimento deles no meu projeto? E faça a mesma coisa antes de uma escolha específica ou decisão – O que eu mais quero como resultado? Paz ou entusiasmo? Facilidade ou estímulo? Você não precisa se condenar para que suas respostas sejam sempre iguais, como uma característica fixa, mas tente se tornar mais sensível ao que está te motivando no momento antes de falar ou agir.

Uma coisa por vez

Nessa meditação, nós tentamos estar mais plenamente presentes em todos os componentes de uma única atividade. Num momento em que você não esteja propenso a se distrair ou perturbado por obrigações, faça um chá para você. Encha a chaleira lentamente, ouvindo as mudanças de tom conforme o nível da água aumenta, o borbulhar conforme a água ferve, o barulho do vapor, o apito da chaleira. Meça devagar o chá solto em uma peneira, coloque-o na chaleira, e inspire a fragrância que exala do vapor. Sinta o peso da panela e a como a xícara se enche suavemente. Continue a meditação quando você pegar a xícara: observe as cores, o formato e o modo como muda de cor com o chá. Coloque suas mãos em volta e sinta o calor. Quando você a levanta, sinta o esforço suave da sua mão e antebraço. Ouça o chá levemente mexer quando você levanta a xícara. Inspire o vapor perfumado e experimente a suavidade da xícara nos seus lábios, a névoa no seu rosto, o calor do primeiro gole na sua língua. Experimente o chá; qual sabor você detecta? Observe todos os sabores na sua língua, a sensação ao engolir, o calor passando através da sua garganta. Sinta sua respiração na xícara criando uma pequena nuvem de vapor. Concentre-se em cada passo separadamente ao beber o chá.

9 Dicas para Meditação Discreta no Trabalho:

  1. Quando está sentado no trabalho, examine as sensações no seu corpo, da cabeça aos pés. Sinta as áreas de tensão e relaxe-as.
  2. Alimente-se! Coma sua refeição atentamente, repare as cores, sabores e texturas do que você está comendo.
  3. Tente realizar um ato simples e consciente de bondade todos os dias. Pode ser simples como segurar a porta do elevador ou dizer um muito obrigado sinceramente.
  4. Mentalmente reconheça aqueles que têm ajudado a aprender suas habilidades, que tem te ensinado a fazer melhor seu trabalho. Nós somos parte de uma rede maior.
  5. Observe como você segura algo com as mãos – uma caneta ou xícara, por exemplo. Às vezes nós colocamos tanta força segurando coisas que isso agrava a tensão sem percebermos.
  6. Toda vez que estiver entediado, preste mais atenção ao momento. Você está ouvindo cuidadosamente ou realizando multitarefas?
  7. Leia um email inteiro duas vezes antes de escrever a resposta.
  8. Vá ao trabalho alguns dias sem seu iPod, livro ou fone. Experimente a transição para o trabalho como uma jornada.
  9. Para a próxima conversa face a face, determine-se a ouvir mais e falar menos.

Publicado em inglês na Lions Roar. Tradução Tamyres Bertanha

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Escrito por
Sharon Salzberg

Sharon Salzberg é co-fundadora da Insight Meditation Society (IMS), em Barre, Massachusetts. Ela estuda a meditação desde 1971, orientando retiros em todo o mundo desde 1974.

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