Artigo - CIÊNCIA, EQUILÍBRIO EMOCIONAL,

Guiado pelo Ego? Este livro é pra você

Em seu novo livro, “Conselho não se dá: um guia para superar a si mesmo”, o psiquiatra Mark Epstein explora as bases comuns aos conselhos do Budismo e da Psicoterapia ocidental.

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O psiquiatra Mark Epstein já se dedicava aos estudos do budismo e das relações sociais enquanto ainda não passava de um estudante na Universidade de Harvard, o que o levaria a concluir o curso de Medicina e seguir além. Baseado em Nova York, Epstein é o autor de vários livros, incluindo “Pensamentos sem Pensador”, “Partir-se sem Quebrar”, e o recém publicado “Conselho não se dá: um guia para superar a si mesmo”.

A seguir, eis um trecho editado de uma entrevista realizada pela Gazeta de Harvard em janeiro deste ano.

 

Gazeta de Harvard: O subtítulo do seu novo livro parece sugerir algo impossível. Você pode falar sobre isso, e suas ideias a respeito do desafio que é fazer as pazes com seu próprio ego?

Epstein: Eu quis escrever à partir da perspectiva de um terapeuta maduro. Muitos dos meus primeiros livros foram escritos à partir da perspectiva de quem havia acabado de descobrir o budismo. Agora, após 40 anos, eu achei que valia a pena escrever à partir do ponto onde me encontro, tendo praticado a psiquiatria por 35 anos. Eu sempre tive muito cuidado ao introduzir a prática de Atenção Plena aos meus pacientes, que podem não estar tão interessados. Tentei trabalhar com minha prática terapêutica de uma maneira tradicional, deixando as preocupações dos pacientes tomarem a frente, mas a influência Budista em mim, que realmente foi o que veio primeiro, influencia a maneira como eu penso e deve influenciar na maneira como eu trabalho. Eu fui deixando acontecer por conta própria ao invés de impor uma postura Budista. O que eu percebi foi que o ego é a base comum entre a psicoterapia ocidental e a psicologia budista. Ambas reconhecem que um excesso de confiança no ego é uma das causas para o sofrimento.

Frequentemente nós pensamos que somos o ego, e essa identificação constante nos prende, nos limita e nos torna menos do que poderíamos ser. O ego se trata de uma manutenção do controle. Ele vem de um lugar de medo e separação. Ele surge na infância quando estamos apenas começando a descobrir quem somos. Precisamos do ego, mas se damos a ele o reinado completo, na verdade nos tornamos mais inseguros. Nós pensamos nele como se estivéssemos dando a nós mesmos uma auto-estima elevada, mas o ego pode ser (apenas) tão ligado ao auto-julgamento e a auto-aversão. Ele está sempre tentando encontrar uma saída para qualquer situação em que se encontre, e não abre espaço para as qualidades mais misteriosas que também nos constituem. O objetivo não é se livrar do ego. É mudar a nossa relação com ele – com ele não sendo nosso mestre e nós não sendo seus escravos.

Gazeta de Harvard: Os pacientes chegam até você com suas próprias experiências e dificuldades. Como você determina como usar o budismo na terapia e vice-versa?

Epstein: Os objetivos do budismo e da psicoterapia ocidental estão interligados. Eu os vejo como uma tríade. Em primeiro lugar, todos nós precisamos de uma quantidade suficiente de auto-estima. Nós precisamos nos sentir bem o suficiente com relação a nós mesmos para funcionar suficientemente no mundo. O budismo reconhece isso no conceito de “nascimento humano precioso”, e a terapia ocidental se preocupa muito em curar as cicatrizes da infância da psique. Alguma quantidade de ego ou “eu” é muito importante. Mas nós também precisamos da habilidade de observar nossa própria mente, pensamentos e sentimentos. Esta é a segunda coisa importante. Isso é algo que tanto a meditação quanto a psicoterapia encorajam de diferentes maneiras. A terapia é construída em cima de uma divisão terapêutica no ego que promove uma espécie de vigilância de nossas vidas internas. A meditação faz isso treinando a mente para observar a si mesma. Finalmente, tanto a terapia quanto a meditação podem nos ajudar a superar a necessidade do ego de controlar tudo. Existem tantas coisas na vida que não podemos controlar. No meu trabalho como terapeuta, tão influenciado pelo budismo, acho que estou trabalhando em todos os três níveis, dependendo do que as pessoas precisam.

Gazeta de Harvard: Como o budismo desempenhou um papel no seu tempo em Harvard?

Epstein: Tive a sorte de realmente descobrir o budismo em uma aula de “religiões do mundo”, no meu primeiro ano. Foi uma aula que eu acabei fazendo por acaso, pois tinha conhecido uma garota que havia se inscrito na aula e me parecia ser uma pessoa interessante, então a segui. Eu não tinha nenhum interesse real em religiões do mundo, mas a primeira metade do semestre inteira foi sobre religiões orientais e eu fiquei muito animado com o que aprendi.

Nós lemos uma coleção de versos budistas chamada Dhammapada, que é escrita para leigos. Eu amei. Realmente falou comigo. Nela, há um capítulo chamado “mente” com o qual me identifiquei. Ele descrevia uma mente ansiosa como um peixe se debatendo em terra seca. Isso abriu o mundo budista para mim. Houveram muitos cursos posteriores que abordaram o budismo de forma periférica e eu participei de todos, e também acabei criando alguns para mim mesmo através de estudos independentes.

Gazeta de Harvard: Você trabalhou como aprendiz para o médico do Dalai Lama durante o seu tempo na faculdade de medicina em Harvard. Como essa experiência moldou sua jornada médica?

Epstein: Durante o quarto ano, eu, junto ao Herbert Benson (cardiologista e pioneiro em medicina do corpo e mente), recebemos uma bolsa de estudos da National Science Foundation para viajarmos até a Índia e realizar medições fisiológicas em monges tibetanos que estavam praticando um tipo de “ioga do calor” em que eles conseguiam aumentar sua temperatura por vontade própria. Como parte disso, eu passei muito tempo com o médico do Dalai Lama durante todas as manhãs. Uma das coisas que descobri trabalhando com a tradição budista tibetana foi que eles têm uma compreensão sobre um distúrbio de ansiedade induzido pela meditação. É possível se esforçar muito, mesmo na meditação, o que torna as pessoas mais estressadas. Os budistas estavam muito familiarizados com isso. Sendo um jovem psiquiatra em treinamento, eu tinha alguma indicação de que isso poderia ser verdade, mas eu estava muito interessado em descobrir que esse era um fenômeno bem documentado entre os tibetanos.

Gazeta de Harvard: “Conselho não se dá” está repleto de histórias pessoais – suas e de seu pacientes. Existe alguma que se destaca?

Epstein: Uma que vem à mente é a de um professor budista que descobriu ter câncer de cólon após completar um retiro de três anos. Uma de suas alunas cuidava dele e me contou suas últimas palavras: “Não, não, não. Ajuda, ajuda”. Ela ficou perturbada porque ele era um meditante muito experiente: Por que ele ainda teria medo da morte? Mas eu fiquei consolado por isso, pois me fez sentir que qualquer pretensão que eu pudesse ter a respeito de como a morte seria para mim, eu poderia desistir. Se há uma coisa que não sabemos, é como estaremos na hora da morte. Talvez ele estivesse apenas sendo honesto.

Eu tenho alguma fé como terapeuta de que se eu puder encorajar meus pacientes a permanecerem com seus medos de uma forma tão aberta e vulnerável quanto este homem, então eles encontrarão um caminho. É o afastamento por acharmos que seremos sobrecarregados por alguma tristeza, ansiedade ou vergonha que nos mantém trancados. Se pudermos vivenciá-los plenamente, sem aversão, é daí que virá a sensação de liberdade.

 

Entrevista originalmente publicada em harvard.edu e traduzida por Fábio Valgas

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