Artigo - CIÊNCIA, Compaixão, SABEDORIA, SOCIEDADE,

Como nós sabemos o que é verdade?

O método científico ocidental nos dá uma maneira sistemática de examinar problemas e encontrar soluções cuja validade pode ser testada. No entanto, esses métodos e seus instrumentos são difíceis de aplicar a certos fenômenos – por exemplo, experiências humanas subjetivas.

0
Shares
Feb2018-MonasteryMicroscope

Em maio de 2016, o Wall Street Journal publicou uma ferramenta on-line interativa chamada “Blue Feed, Red Feed”, que permitia ver o duelo das mídias sociais de usuários liberais e conservadores durante as eleições presidenciais de 2016. Essa comparação lado a lado revelou não apenas as formas totalmente diferentes que podem interpretar fenômenos, mas como um grupo poderia ver sua interpretação como indiscutível e sentir-se justificado ao menosprezar outro grupo por seus “fatos alternativos”. As questões em jogo aqui são cruciais. Existem maneiras de nos tornarmos mais abertos às posições dos outros, de expandir nossa capacidade de engajar produtivamente com pessoas além de nosso grupo? E como determinamos o que é verdade?

O método científico ocidental nos dá uma maneira sistemática de examinar problemas e encontrar soluções cuja validade pode ser testada. Podemos formular uma hipótese e desenvolver um experimento para testar se está correto. Podemos conduzir o experimento, ver o que encontramos e ajustar nossa hipótese para acomodar o que aprendemos. Então podemos tentar de novo. Existem muitos instrumentos para nos ajudar a fazer esse trabalho, como máquinas de ressonância magnética funcional para nos dizer o que está acontecendo em nossos cérebros quando realizamos certas tarefas mentais, ou testes de DNA para determinar o parentesco biológico.

No entanto, esse método e seus instrumentos são difíceis de aplicar a certos fenômenos – por exemplo, experiências humanas subjetivas. Nosso estudo da perspectiva da primeira pessoa é limitado pelo fato de que não podemos olhar para a experiência humana de fora da experiência humana. Um psicólogo pode projetar um experimento elegante para estudar a mente humana, mas no final ele está usando sua própria mente para planejar o experimento e interpretar os resultados; é impossível para ele, ver de outra forma. E não temos instrumentos para mostrar nossa experiência individual de maneira que outra pessoa possa verificá-la objetivamente.

É aí que entra o budismo tibetano e outras tradições contemplativas, fornecendo métodos para pesquisar nossas mentes e penetrar em nossas experiências. Essas tradições contemplativas nos oferecem técnicas para avaliar e analisar nossos fenômenos sensoriais e mentais, bem como uma linhagem de professores cujas descobertas fornecem orientação e instrução para outros que seguem seu caminho. Essas ferramentas podem nos ajudar a mudar as maneiras pelas quais nos identificamos e nos relacionamos com nossos pensamentos e emoções.

Assim, a ciência ocidental e o budismo tibetano oferecem métodos complementares e sistemáticos para o avanço da compreensão humana. Diferiram historicamente em seus principais objetos de campo de estudo, como física e biologia, olhando para o mundo externo, e o budismo tibetano focando principalmente no mundo interior da mente – mas, nos últimos trinta anos, isso começou a mudar. Representantes dos dois campos estão se unindo com crescente regularidade através do trabalho de organizações como o Mind & Life Institute, a Emory-Tibet Science Initiative e a Science for Monks, bem como muitos projetos de pesquisa, ensino e clínica para explorar várias maneiras de colaborar e beneficiar-se dos métodos e achados um do outro.

Por exemplo, a neurocientista e psicóloga social Tania Singer pesquisou a compaixão e a empatia e como parte integrante de seu trabalho, estudou os cérebros e as experiências dos praticantes contemplativos. Em seu livro,  The Monastery and the Microscope: Conversations with the Dalai Lama on Mind, Mindfulness, and the Nature of Reality, ela descreve como confiar na experiência de um meditador altamente treinado, levou a um novo entendimento de empatia e compaixão. Como parte de sua pesquisa, ela convidou Matthieu Ricard, um monge budista com grande experiência em meditação da compaixão, para seu laboratório para alguns testes iniciais. Ela lembra-se de escanear seu cérebro enquanto gerava a experiência da bondade amorosa (mettā):

Eu pensei que ele estava empatizando com o sofrimento de alguém, mas o sinal cerebral era totalmente diferente. Foi impressionante. Não se parecia com as centenas de estudos que fizemos em cérebros não treinados, pedindo aos participantes que simpatizassem com o sofrimento dos outros, que sempre ativavam partes da matriz da dor. Matthieu ativou redes que sabemos estar envolvidas em sentimentos positivos de recompensa e afiliação. Quando ele saiu do scanner, perguntei-lhe: “O que você estava fazendo? Você não estava sofrendo, não estava sentindo a dor? A rede é tão diferente. Você estava ativando uma rede que sabemos estar envolvida em emoção positiva, afeto e ligação.” Matthieu explicou de sua perspectiva em primeira pessoa o que ele estava sentindo. Ele disse que se sentia muito forte e preocupado e fortemente motivado para aliviar o sofrimento do outro, mas não necessariamente sentia dor.

Então, pedimos a ele que experimentasse empatia pela dor, em vez de bondade e compaixão. Nós dissemos a ele: “Volte e por favor, apenas tenha empatia – sinta o sofrimento”… Quando ele imagina o sofrimento e entra em um estado de empatia, podemos ver isso. Isso nos ajudou a desenvolver um modelo onde diferenciamos entre a capacidade de empatia e compaixão.

Tania usou o que viu no cérebro de Matthieu, junto com o próprio relato dele sobre sua experiência subjetiva, para ajudar a projetar um estudo para ver se alguém pode ser treinado para experimentar um estado similar de compaixão não-referencial. Ela disse: “É bom ter um cérebro como o de Matthieu, mas a ciência não acredita em apenas um cérebro”. Nem o budismo. Como a ciência ocidental, ela insistiu na replicabilidade das descobertas e refinou continuamente suas ferramentas para que possam ser usadas com a máxima eficácia.

Quando as pessoas ouvem sobre esse tipo de colaboração em nosso livro, elas às vezes comentam sobre quão maravilhoso é que, diferentemente de outras religiões, a ciência mostra que o budismo é verdadeiro. Isso foge completamente do ponto. O objetivo de trazer filósofos, monges e cientistas para a conversa não é excluir do budismo tudo o que não se encaixa na compreensão científica atual (idéias sobre o renascimento, por exemplo), nem convencer a ciência ocidental de que não precisa inventar-se novos métodos para estudar a consciência, já que o budismo já fornece um.

É claro que chegar a uma conclusão compartilhada pode ser satisfatório e produtivo – a física quântica parece estar de acordo com os conceitos budistas fundamentais de interdependência, por exemplo, e o Dalai Lama disse que aprender sobre a neuroplasticidade aumentou sua motivação para praticar a meditação. Mas por mais promissoras que sejam as perspectivas complementares que essas duas tradições e suas interações nos dão, e a ênfase que colocam em ir além da câmara de eco de qualquer comunidade em que vivamos, seja disciplinar, social ou geopolítica. Eles podem nos ajudar a garantir que estamos usando todas as ferramentas à nossa disposição para interagir com os outros de maneira produtiva, aprender o máximo que pudermos e compartilhar nossas descobertas para obter o maior benefício possível.

 

Artigo originalmente publicado em Mind and Life e traduzido por Daniele Vargas

Comentários no Facebook