Artigo - EQUILÍBRIO EMOCIONAL,

Como impedir que suas estórias comandem a sua vida

Pesquisas mostram que temos a capacidade não somente de parar a tagarelice das nossas estórias, como podemos também reduzir nosso stress, refazer nossas conexões cerebrais e reinventar nossas relações por meio de responder a elas de modo diferente.

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As estórias que contamos, particularmente aquelas das quais não estamos conscientes, podem moldar profundamente quem somos e as decisões que tomamos. Reconhecer nossas estórias, e como elas influenciam a maneira como nos relacionamos com os outros, é um sinal de tornar-se autoconsciente e um alicerce da atenção plena. Mas pode ser difícil discriminar nós mesmos de nossas estórias, ao menos que estejamos conscientes delas e que entendamos suas origens.

Somos todos contadores de estórias natos – é como organizamos nossos mundos internos. Nós passamos uma grande parte do tempo codificando informações em matrizes de significado que usamos para interpretar e para prever eventos sociais, experiências de relacionamento e resultados. Mesmo agora, você provavelmente está mentalmente descrevendo sua reação à última frase. Estórias têm sido usadas por milênios por povos indígenas para transmitir de tudo, do conhecimento da caça a navegação, a passagem de valores e de tradições adiante. Elas são tão centrais para nossas identidades quanto o nome que nos foi dado.

Da próxima vez em que você estiver no trânsito, andando de ônibus ou de metrô, ou esperando na fila, pare por um momento e repare no que está acontecendo na sua mente. Há grandes chances de você encontrar-se afundado até os joelhos em alguma estória. Pode ser uma recontagem de um artigo que você leu no jornal durante o café da manhã, fazendo planos para o final de semana, ou re-encenando uma discussão. De qualquer forma, se trata de uma estória, e é provável que haja outra correndo pela sua mente mesmo enquanto você lê isso. Se trata de um multitarefa bastante avançado!

Como desenvolvemos nossas estórias

Nós começamos a criar estórias muito cedo na vida. O psicólogo de desenvolvimento Jean Piaget, mais conhecido pelo seu trabalho sobre os quatro estágios do desenvolvimento cognitivo em crianças, propôs que crianças são como “pequenos cientistas” que conduzem uma série de testes, continuamente e sem fim, na tentativa de dar sentido ao mundo. Aproximadamente entre os 2 e 7 anos de idade, as crianças estão naquilo em que Piaget chamou de “estágio pré-operacional”. Durante esse estágio, crianças entram num fluxo contínuo de imitação onde elas testam papéis na tentativa de achar algum que sirva. Se você as observa atentamente, é possível notar que elas geralmente narram as suas brincadeiras com estórias elaboradas. Adultos fazem a mesma coisa. A única diferença é que as nossas estórias geralmente acontecem dentro das nossas cabeças e influenciam o nosso comportamento de maneiras mais sutis.

A maioria das estórias fundamentais que criamos sobre nossas identidades foram moldadas pelas percepções de pais, professores e outras pessoas importantes; quanto mais consistente é o feedback, mais marcante é a estória. Enquanto caminhamos pela nossa adolescência e para a vida adulta, essas narrativas pessoais são entrelaçadas, formando a malha de quem somos e de como habitamos o mundo. Elas também alimentam os tipos de experiências e relacionamentos que buscamos, tanto confirmando quanto refutando nossas crenças e expectativas. Mais recorrente que esporádico, nós buscamos por informação e giramos em torno de ambientes e situações que reforçam nossas narrativas pessoais – um fenômeno conhecido como “viés de confirmação”. Esses vieses podem ter uma influência enorme em como enxergamos a nós mesmos e em quem nos tornamos.

Quando eu estava no primário, meu irmão mais velho foi apelidado de gênio da matemática. Ele era o aluno que só tirava 10 em matemática sem precisar abrir um livro sequer, e recebia uma grande porção de reconhecimento. Eu percebi muito cedo que, apesar do meu interesse pela matemática, ele é quem era o gênio designado, o que, por consequência, me fez a “não-gênia”. Com o passar do tempo, essa identidade tornou-se parte da minha história pessoal. Isso não só moldou meu comportamento como também teve uma influência significativa nas escolhas acadêmicas e de carreira que fiz no começo da minha vida adulta.

Quando cheguei no ensino médio, eu não gostava de matemática e nem escolhia matérias optativas porque eu era “ruim” nisso. Com o passar do tempo, essa estória de “ruim em matemática” tornou-se uma crença limitante que me guiou para longe de perseguir uma carreira na ciência. Foi somente através do meu desejo esmagador de perseguir um mestrado em psicologia e do suporte de uma professor de matemática maravilhoso que eu descobri eventualmente, que eu me tornei bastante proficiente em matemática. Através de prática e perseverança, eu derrubei o mito e reescrevi a estória. Mesmo assim, o mito original de “ruim em matemática” ainda toma conta quando eu me sinto desafiada por algum dilema matemático difícil. Em outras palavras, o stress dispara essas estórias mesmo quando acreditamos que já as reescrevemos. Há quase a sensação de como se elas tivessem sido gravadas em pedra. Mesmo depois de apagá-las e substituí-las, elas ainda podem emergir à superfície, particularmente quando estamos nos sentindo amedrontados, sobrecarregados ou ansiosos.

Nem todas as narrativas são negativas ou danosas, e elas certamente não são intratáveis. Nós vivemos estórias de uma forma ou de outra, algumas limitantes e outras empoderantes. Os psicólogos Geoffrey Cohen e David Sherman falam sobre um mindset no qual indivíduos enxergam a si próprios como sendo fortes, capazes, resilientes e aptos a superarem desafios – o que eles chamam de narrativa de adequação pessoal. Numa análise sobre o impacto da auto-afirmação no comportamento, eles descobriram que auto-afirmações positivas podem e de fato impactam positivamente os resultados na saúde e nos relacionamentos, às vezes durante meses e até mesmo anos. Por outro lado, narrativas negativas podem levar a consequências devastadoras e a profecias auto-realizadas a longo prazo. Nas palavras do psicólogo Abraham Maslow, “se a única ferramenta que você tem é um martelo, tudo se parece com um prego.” Quanto mais você se agarra a uma crença particular, maior poder ela tem sobre você.

 

Porque as estórias importam

Nossas estórias não se desenvolvem em isolamento. Elas são moldadas pelos anos de interação social – algumas positivas, algumas negativas. Humanos tendem a se lembrar de eventos dolorosos com mais frequência do que de eventos prazerosos. Por exemplo, nós geralmente somos mais dispostos a nos lembrarmos de um comentário crítico do que de um positivo – um fenômeno conhecido como viés negativo. Pesquisas confirmam que eventos negativos normalmente são mais notáveis, e são lembrados e recordados mais precisamente e com mais detalhes do que aqueles positivos. A linguagem humana provê um reflexo excelente disso. Estudos com adultos ocidentais mostraram que nós possuímos uma linguagem mais complexa e elaborada para descrever emoções e experiências negativas do que para experiências positivas. Essas experiências negativas não precisam ser traumáticas para serem impactantes, porém nós tendemos a lembrar delas com detalhes excepcionais e mais prontamente do que de eventos positivos. Isso é particularmente verdadeiro quando estes incidentes emocionalmente carregados ocorrem no contexto de um relacionamento.

Por que essas estórias e essas narrativas pessoais são tão importantes? No momento em que atingimos a vida adulta, essas estórias e identidades estão literalmente ligadas aos nossos cérebros após anos de ensaio. Isso significa que elas são comumente inflexíveis e são características habituais de nossa paisagem mental e emocional. Nós também temos inadvertidamente ou conscientemente nos tornado apegados ao seu conteúdo, e geralmente não somos mais aptos a discriminar que elas são, de fato, apenas estórias. Por causa de sua força, de sua natureza habitual, e pelo fato de que elas são fortemente ligadas a nossa identidade, nós ficamos particularmente suscetíveis a vivê-las quando somos taxados, ou quando nos sentimos estressados, cansados, ansiosos, sobrecarregados ou amedrontados.

Nos tornando conscientes das nossas estórias

Apesar de nossas estórias influenciarem nossas percepções e reações, nós não somos destinados a vivê-las. Nós somos, contudo, muito mais propensos a confiar nelas como lentes da percepção quando estamos cronicamente estressados, emocionalmente reativos ou agindo no piloto automático. Assim, aprender a gerenciar o stress é a primeira tarefa do negócio.

Quando você começa a prestar atenção no seu falatório mental, você provavelmente irá descobrir que as estórias que você conta parecem não ter fim. É como a mente funciona – uma incessante corrente de comentário. Michael Singer, autor, ensaísta e renomado educador contemplativo sugere que prestar atenção nessa voz é um passo essencial para no libertarmos dela. “A melhor maneira de se libertar desse falatório incessante é dando um passo atrás e olhando para ele de modo objetivo. Como se parecesse que alguém está lá falando com você. Não pense sobre isso, apenas a perceba”, ele sugere. Mas isso é mais fácil falar do que fazer, particularmente quando estamos estressados, cansados e sobrecarregados. Isso acontece porque essa voz é muito responsiva ao stress. Quanto mais ansiosos, amedrontados e sob pressão nos sentimos, mais alta e persistente essa voz se torna. É o equivalente a ter um bebê faminto no corredor de doces do supermercado a fazer barulho dentro de seu cérebro. Quanto mais você nega, mais ele protesta até que consiga a sua atenção de uma forma ou de outra.

Pesquisas mostram que temos a capacidade não somente de parar a tagarelice das nossas estórias, como podemos também reduzir nosso stress, refazer nossas conexões cerebrais e reinventar nossas relações por meio de responder a elas de modo diferente. Esse é um dos sinais da atenção plena – gentilmente aprender a observar e a estar presente em nossos corpos, mentes e experiências, sem julgamento. Mas, para fazer isso acontecer, você precisa antes aprender mais sobre as estórias que você conta.

Exercício: identificando a sua estória pessoal

Reserve alguns minutos para escrever a estória pessoal da sua identidade. Você pode usar apenas frases descritivas simples, como “eu sou durão”, “eu cuido dos outros antes de mim mesmo”, “eu sou bom em matemática” etc. Você também pode escolher escrever suas experiências, crenças familiares ou outras influências que ajudaram a moldar como você se vê agora. Uma vez que você tenha listado as suas crenças sobre si mesmo e identificado algumas de suas estórias, olhe para cada uma delas e faça a si mesmo as seguintes perguntas:

1. De onde veio essa estória?
2. Essa estória é minha ou é de alguma outra pessoa?
3. Essa estória é uma verdade sobre mim nesse momento?
4. Essa estória está contribuindo ou dificultando a minha felicidade?
5. Eu escolho continuar a viver essa estória ou é hora de escrever uma nova?

A estratégia mais efetiva para trabalhar com suas estórias pessoais ou reajustar o seu mindset é observar os seus pensamentos objetivamente e abster-se de se apegar demais a eles. Mais importante, é essencial lembrar que você não é a sua estória e que ela não te define. Essas narrativas são uma miríade de pensamentos que seguem correndo através do seu banco de dados mental de forma incessante. Faz parte de ser humano. Cabe a você estar consciente dessas estórias e decidir se deseja viver de acordo com elas – ou não.

 

Artigo publicado originalmente em mindful.org e traduzido por Fábio Valgas