Artigo - EQUILÍBRIO EMOCIONAL, MEDITAÇÃO, MOTIVAÇÃO, SABEDORIA, SOCIEDADE,

A inteligência do estado depressivo

Constantemente, quando deprimidos, nos perguntarmos se é possível mudar a nossa situação presente, de forma que fiquemos novamente confortáveis e felizes, mas talvez devêssemos mudar a pergunta para: Eu sou capaz de permanecer presente e em paz em meio às turbulências e dores pelas quais estou submetido, e então entrar em contato com a sabedoria imanente dos estados depressivos?

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darkcave

Gumball é um desses novos desenhos, onde humor extremamente ácido e valiosas lições se misturam para dar cor a trama, na maioria das vezes, nada infantil.

No episódio “Bad mood”, o personagem principal, Gumball, acorda extremamente irritado, mau-humorado, desolado, sem energia e não quer sair da cama. Sua família tenta ajudá-lo, falando muitas coisas para motivá-lo, mas ele só piora e pede para que todos sumam. E assim, eles o fazem. Gumball entra então em uma viagem que o leva a uma total escuridão. Uma mancha negra literal o persegue e em certo momento toma conta de todo o cenário do desenho. Vemos somente Gumball e o cenário todo preto. Ele então consegue apalpar algumas coisas, apesar de não enxergá-las, e conclui: “meu pai estava certo, toda essa escuridão existe só dentro da minha mente”. A partir desse momento ele começa a ter flashs do próprio pai dizendo algumas coisas pra ele, coisas que antes não fizeram sentido e, portanto, ele não deu importância alguma. E nesse processo, ele tem alguns insights, dentre eles, o de quanto ele amava a família que tanto o irritava e o quanto ele era necessário para os seus pais e irmãos. Quando ele alcança essa percepção, a escuridão automaticamente evapora e magicamente a família volta a aparecer, feliz, em volta dele.

Neste século, quase todos nós já passamos por algum período de depressão, leve ou profunda, e a maioria das pessoas buscam o auxílio de medicação para pôr fim ao estado depressivo, assim que o percebem. Muitos somos depressivos crônicos, precisamos de medicação durante toda a nossa vida. No entanto, se o estado depressivo assola praticamente todos os seres humanos, em menor ou maior grau, porque é que ainda o tomamos como uma anomalia, uma doença a ser combatida?

Não poderia ser a depressão, com os momentos repletos de sentimentos ruins, de tremendas dores, de dificuldades desesperadoras, de total escuridão em nossa mente, precisamente o precioso momento em nossas vidas em que nós realmente nos voltamos a nós mesmos? E é nessa rara oportunidade que temos então a chance de ver com clareza e de mudar alguns dos nossos piores condicionamentos e padrões habituais? Não seria somente esse tipo de situação capaz de fazer com que nós genuinamente consigamos entrar em contato com as barreiras que construímos ao redor do nosso coração?

“A depressão não é apenas um espaço em branco, ela contém todos os tipos de coisas inteligentes acontecendo dentro dela. Quero dizer, basicamente a depressão é extraordinariamente interessante e um estado de ser altamente inteligente. É por isso que você está deprimido. A depressão é um estado de espírito insatisfeito em que você sente que não tem saída. Portanto, trabalhe com a insatisfação dessa depressão. O que quer que esteja nele é extraordinariamente poderoso. Tem todos os tipos de respostas, mas as respostas estão ocultas. Então, na verdade, acho que a depressão é uma das mais poderosas de todas as energias. É uma energia extraordinariamente desperta, embora você possa sentir-se sonolento. Mas, ao mesmo tempo, você está experimentando uma tremenda textura, a textura de como a estagnação do samsara funciona, o que é fantástico. Você sente a textura de alguma coisa. Esse entretenimento não funcionou. Aquele entretenimento não funcionou. Lembrar-se do passado não funcionou; projetar-se para o futuro não funcionou. Tudo é feito de textura, então você pode experimentar a depressão de uma maneira muito inteligente. Você pode se relacionar completamente com isso. E uma vez que você comece a se relacionar com ela como uma textura de algum tipo, como uma situação real e sólida que contém uma tremenda textura, um tremendo cheiro, então a depressão se torna uma linda passarela. Nós não podemos discutir isso fielmente. Nós temos que realmente entrar em uma depressão pesada e depois ter um sentimento sobre isso.”
Esse é um belo ensinamento do mestre tibetano Chogyam Trungpa Rinpoche. E alguns estudos científicos atuais corroboram com essa visão, que coloca a depressão como um estado pleno de inteligência.

Um estudo feito pelo Dr. Paul Andrews, psicólogo evolucionista da McMaster University, no Canadá, mostra que pessoas deprimidas possuem algumas vantagens surpreendentes em suas habilidades de pensamento, como por exemplo processar informações mais profundamente; serem mais precisas em tarefas complexas; melhor capacidade de julgamentos em informações detalhadas e análises de custo-benefício mais precisas.

O Dr. Paul argumenta que a depressão pode ser na verdade “uma adaptação para analisar problemas complexos”. Ele enxerga essa possibilidade no quadro de sintomas da depressão, que inclui “anedonia”, ou uma incapacidade de sentir prazer; a frequente ruminação do pensamento, muitas vezes em looping; e um maior tempo em sono REM, fase associada à consolidação da memória. Para Andrews, isso reflete um desígnio evolucionário, que é “nos afastar das atividades normais da vida e focarmos na compreensão ou solução de um problema subjacente que desencadeou o episódio depressivo”. Como, por exemplo, um relacionamento “falho”. O episódio depressivo seria, então, uma espécie de estado alterado, diferente do zumbido da vida cotidiana, que supostamente faria com que prestássemos atenção à ferida que precisamente nos levou ao transtorno. Exatamente como acontece com o Gumball, no desenho.

A depressão tem sido vista como nada além de um obstáculo, mas se ela pode realmente ser uma adaptação benéfica, um mecanismo natural para lidarmos com certos problemas que desafiam o fácil entendimento, seria possível que ao nos depararmos com esse grande incômodo interno, ao invés de corrermos imediatamente em busca de voltarmos ao estado habitual de bem-estar – tendo a felicidade constante como uma obrigação – simplesmente relaxássemos nesse estado, e aprendêssemos a estar presente, a observar, a compreender e a contemplar o que nos colocou ali?

Se o Gumball tivesse parado a escuridão antes dela tomar conta de todo o cenário em sua mente, provavelmente ele jamais teria superado as suas dúvidas e problemas em relação à sua família. E então, pode ser que ele ficasse preso em um estado intermediário, de não tristeza profunda, mas tampouco de felicidade: um estado de não resolução do problema subjacente. E isso sim desencadearia uma vida inteira de sofrimento.

A depressão pode não ser por analogia, como usualmente nos referimos, o fundo do poço, mas sim uma caverna escura, a qual se, mesmo tomados por medo e angústia, continuarmos andando e a atravessarmos por completo, chegaremos a um local bem mais claro e brilhante do qual partimos em primeiro lugar.

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