Artigo - ATENÇÃO, CIÊNCIA, Compaixão, EQUILÍBRIO EMOCIONAL, MEDITAÇÃO,

A importância de meditar, mesmo quando se está feliz

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Richard Davidson fala sobre a importância de se cultivar uma rotina de meditação diária e sugere algumas dicas para facilitar a criação desse hábito.

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Nós somos criaturas emocionais.

 

As emoções são as lentes através das quais nós experienciamos a vida cotidiana e habitamos o mundo – como amamos, aprendemos, trabalhamos, construímos sentido e concebemos soluções para os problemas que enfrentamos. Mas existem cada vez mais evidências que sugerem que nem tudo vai bem com nossas vidas emocionais.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, estima-se que 350 milhões de pessoas em todo o mundo são afetadas pela depressão. Nossa cultura fetichiza a produtividade e ocupação, que prejudicam nosso bem-estar coletivo. Nós vamos a extremos para experimentar o positivo e evitar o negativo.

Mas a neurociência moderna sugere que essa não precisa ser a nossa história. A ciência diz que podemos nos treinar para sermos mais felizes – e mais saudáveis.

Esta questão, sobre se podemos aprender bem-estar, tem sido o motivador de nossa pesquisa na Universidade de Wisconsin-Madison, onde, por mais de 30 anos, trabalhamos na compreensão neurocientífica de como nossas emoções influenciam nossa felicidade, saúde e interações com os outros. Minha jornada me levou ao redor do mundo em busca de respostas – até mesmo à porta do Dalai Lama, que me ajudou a lançar os primeiros estudos científicos das mentes budistas que intencionalmente treinam seus cérebros para serem felizes e pacíficos.

Isso também nos levou a uma possibilidade provocativa. Assim como participamos de exercícios físicos para nos manter saudáveis, também podemos participar de exercícios mentais – como a meditação – para promover o bem-estar físico e emocional.

Por meio de um estudo neurocientífico da meditação, aprendemos a fazer exatamente isso – cultivar qualidades mentais positivas, como gentileza, compaixão, empatia e perdão. E embora as evidências apontem há muito tempo para habilidades de bem-estar, como a meditação, como sendo úteis em situações estressantes e de experiências negativas, o que você talvez não saiba é que é igualmente importante cuidar de sua mente quando estiver feliz e não estressado. Podemos tomar como analogia o envolvimento com exercícios físicos quando estamos saudáveis. Enquanto o exercício físico é usado para reabilitar pacientes, temos uma compreensão geral de que o exercício físico também é útil preventivamente. Da mesma forma, envolver-se em exercícios mentais, mesmo quando estamos felizes, é essencial para desenvolver os recursos necessários para sermos saudáveis ​​e resilientes em meio aos desafios.

 

Dois tipos de meditação

Muito depende do tipo de meditação que está sendo praticada e do contexto em que ela está sendo feita. Práticas que enfatizam a atenção plena são diferentes em seus efeitos sobre o cérebro do que aquelas que são projetadas para cultivar compaixão ou bondade.

Os circuitos cerebrais engajados pela meditação da atenção plena estão associados à meta-consciência – nossa consciência de estar consciente. Todos nós já tivemos a experiência de ler um livro e após alguns minutos não ter ideia do acabou de ler. Não é que você não entendeu cada palavra. Você está ciente de estar lendo palavras, mas sua meta-consciência não estava presente. No momento em que você percebe que está perdido, esse é o momento da meta-conscientização, e é esse tipo de monitoramento que é fortalecido pela meditação da atenção plena.

Esta é uma das funções mais importantes da meditação de atenção plena – melhorar a qualidade do monitoramento e fortalecer os circuitos que desempenham um papel crítico nesse monitoramento. A função de monitoramento é fundamental, pois saber que se está consciente permite que você tenha uma escolha mais intencional em como você reage às oportunidades e desafios que enfrenta. Isso é verdade não apenas para emoções negativas, mas também para emoções positivas, já que podemos nos apegar a coisas prazerosas, e esse tipo de prazer não dura. Monitorar a contínua variação dos nossos sentimentos enquanto isso acontece pode ser útil no sentido de que assim podemos observar as emoções conforme elas vêm e vão, em vez de ficarmos presos a elas.

Práticas simples de compaixão, o outro tipo de meditação, também podem ter impacto sobre as pessoas ao seu redor.

Em um dos primeiros estudos desse tipo realizados em nosso laboratório, descobrimos que apenas 30 minutos de meditação da compaixão por dia durante um período de duas semanas alterou circuitos no cérebro e resultou em participantes agindo mais generosamente uns com os outros. Estamos aprendendo que infundir as tarefas diárias com consciência e cultivar intencionalmente a compaixão pode nos ajudar a fortalecer nossos cérebros de forma a reduzir nossas preocupações diárias e enriquecer nossas vidas.

 

Uma maneira simples de começar

Mas como começar, se você nunca fez isso antes?

Para dar um conselho sobre isso, lembro-me da Lama Tsomo, uma professora do budismo tibetano cujo livro recente, Por que o Dalai Lama está sempre sorrindo? Uma Introdução e Guia do Ocidente para a Prática Budista Tibetana, oferece conselhos práticos sobre os tipos de práticas simples de consciência e compaixão descritas acima. Sendo uma americana, uma lama budista tibetana e uma mãe, ela tem uma perspectiva bastante incomum. Sua experiência no mundo real como uma mãe vivendo numa cultura ocidental, permite que ela apresente essas práticas antigas de maneiras que são diretamente relevantes para os desafios que as pessoas comuns normalmente enfrentam em nossa cultura.

Uma prática específica para aumentar a compaixão que ela compartilha em seu livro, é olhar para todo e qualquer ser vivo que ela encontra como sendo um parente próximo. Amar a tudo e a todos como fazendo parte da sua família. Esse tipo de meditação é algo que pode ser gradualmente desenvolvido ao longo do tempo. Quando praticada, as pesquisas mostram que ela pode mudar nossa experiência com relação aos outros, nosso comportamento e nossos cérebros. Como cientista, estou incrivelmente curioso para aprender como tais intenções positivas com relação aos outros podem promover uma maior interconexão e harmonia interpessoal em um mundo que pode ser bastante estressante.

Essa forma de prática de compaixão é muito diferente dos tipos de práticas de atenção plena, que são mais comumente ensinadas no Ocidente.

As práticas de atenção plena não promovem mudanças no conteúdo de nossas mentes. Em vez disso, elas nos convidam a trazer nossa consciência para o nosso corpo, nossa respiração, ou para o ambiente em nossa volta. As práticas de compaixão e bondade amorosa envolvem uma mudança explícita no conteúdo mental, uma mudança em direção ao cultivo de qualidades virtuosas da mente. Enquanto as pesquisas científicas sobre bondade e compaixão estão apenas começando, descobertas iniciais indicam claramente alterações nas redes cerebrais associadas à empatia e à emoções positivas, e mudanças de comportamento em direção a uma orientação mais social e altruísta.

À partir de conversas com a Lama Tsomo, onde exploramos as interseções entre a ciência e o budismo, me ocorreu que o convite essencial presente em ambas as investigações, científica e budista, é o de que todos nós podemos tirar vantagem do fato de que nossos cérebros se alteram em resposta à experiência e ao treinamento. Ao cultivar intencionalmente nosso próprio bem-estar – se entendermos que isso é algo que pode ser melhorado, ampliando nossas respostas perante as adversidades –, estaremos prontos e resilientes quando enfrentarmos os desafios inevitáveis.

 

Dicas para prática diária

Em seu livro “Por que o Dalai Lama está sempre Sorrindo?”, Lama Tsomo, diretora do namchak.org, diz que a coisa mais difícil com relação a manter uma prática de meditação diária é “conseguir pôr a bunda na almofada diariamente. Em outras palavras, começar é a parte mais difícil”.

Aqui vão suas dicas:

• Dê a si mesmo um objetivo realmente alcançável. 15 minutos por dia. Confie em mim: Trinta minutos a cada dois dias não funcionará. E não há desculpa para não fazer 15 minutos.

• Se você faz algo todos os dias durante 21 dias, isso se torna um hábito. Os Alcoólicos Anônimos usam essa teoria em seu trabalho.

• Pense na prática diária como férias.

• Insira a prática em seu planejamento diário. É melhor, porém não essencial, fazer as suas sessões assim que você acorda pela manhã.

• Mantenha suas sessões na mesma parte da sua programação diária.

• Tenha um lugar regular de prática para associá-lo à meditação. Nossos cérebros funcionam por associação.

• Não adote uma abordagem perfeccionista ao praticar. Pratique a compaixão pela sua mente enquanto a treina.

 

 

Texto publicado originalmente em medium.com e traduzido por Fábio Valgas.

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Escrito por
Richard Davidson

Richard J. Davidson (nascido em 12 de Dezembro de 1951) é um cientista da Universidade de Winsconsin- Madison.

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  • sosteneshenrique

    ótimas dicas, vou por em prática, muito obrigado!